23 Jun 2012, 18:02

Texto de

Opinião

Abre a janela e deixa a rua entrar

Imaginam o que seria do S. João se nascesse nas últimas décadas? Quantas ilegalidades teria? Haveria fogueiras? As sardinhas eram compradas sem IVA? O alho-porro era permitido? Ficávamos sem festa.

Sábado passado era para ir à Vandoma mas deixei-me preguiçar. A chuva e a ocupação do espaço pelas roulottes que antecipam o São João demoveram-me. A verdade é que tenho algumas coisas para vender e o meu filho, sobretudo, quer ver-se livre de alguns brinquedos e outros tantos livros que são “demasiado de criança” para os seus vetustos 10 anos. A juntar a isto, a experiência Vandoma é delirante para ele e sempre curiosa para mim. Adoro a Vandoma, mesmo que não compre, mesmo que não venda.

Uma feira de usados, para lá dos sites especializados que temos para esse comércio, é ao mesmo tempo uma ocupação livre no espaço na cidade (agora condicionada pelo aluguer dos “melhores lugares”), um espaço de convivência social e um momento de descoberta do outro (quem compra estas coisas? e quem raio vende coisas destas?). E de lucrar, e de reciclar e de dar nova vida aos objetos.

Sábado passado fiquei a saber que foi ocupado um pequeno espaço modernista que se situava na praça do Marquês de Pombal. O edifício inaugurado em janeiro de 1948 e que resistiu à voracidade de transformação da cidade nos últimos 20 anos era uma biblioteca e esteve ali até 2001. Os ocupantes chamaram-lhe Biblioteca Popular do Marquês e logo no domingo decidimos que os livros arrumados no caixote para irem para a Vandoma iam para o Marquês.

Acredito que é preciso deixar a sociedade funcionar, sem ser necessária intervenção estatal, e o Porto até é um excelente exemplo disso. E nem o digo pela Vandoma, pelo comércio da cidade ou pelos “velhos liberais” que os políticos de Lisboa gostam de citar. Escrevo-o por causa do S. João. Imaginam o que seria do S. João se nascesse nas últimas décadas? Quantas ilegalidades teria?  Haveria fogueiras? As sardinhas eram compradas sem IVA? O alho-porro era permitido? Ficávamos sem festa.

O Estado mete, de facto, a mão em tudo, e há coisas em que se deve deixar à sociedade civil — por exemplo, a recuperação de edifícios que o Estado não consegue dinamizar (limpar, que seja) como onde fugazmente foi criada a Biblioteca Popular do Marquês. Para isso, até na nossa socialista e “aliberal” Constituição (como referem os artigos que os ativistas colaram nas paredes do edifício do Marquês) “é conferido o direito de ação popular” para “assegurar” os bens das “autarquias locais” (artigo 52.º), todos “têm o dever” de “promover de preservar, defender e valorizar o património cultural” (art.º 78.º) e “são apoiadas pelo Estado as experiências viáveis de autogestão” (art.º 85.º).

Contudo, o Estado, a autarquia local através da Polícia Municipal, não faz nem deixa fazer e meteu de novo a mão onde não devia, entaipando a Biblioteca.

Os nossos livros continuam ali no caixote. Espero que, entretanto, estes ou outros ativistas consigam abrir as janelas de edifícios devolutos e deixem “a lua entrar”, como se canta na canção sanjoanina do GAC. Até lá, não nos rendamos aos “senhores que têm dor de cotovelo” e querem “o povo tristonho” e porque é S. João todos a “cantar na rua”.

Filinto Melo escreve segundo o novo acordo ortográfico

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