2 Out 2011, 15:28

Texto de

Opinião

À volta das minhas memórias: Recordando o Jorge Estevão

Relembro com carinho as aventuras que vivemos a 2. Lembro-me recorrentemente da primeira – a frustrada tentativa de descida do Douro em kayak, em 1975.

A canoagem foi a modalidade desportiva mais importante para o meu desenvolvimento físico, desportivo, intelectual e humano. Posso afirmar sem rebuços que, ao tomar contacto com ela nos meus 14 anos, a canoagem moldou o essencial do meu carácter em termos de capacidade de luta, resiliência e vontade de vencer.

Pratiquei-a sempre de forma intermitente com outras modalidades (principalmente remo e basquetebol), até ao momento em que optei por ela em exclusivo, por volta dos 32 anos de idade, o que ainda me permitiu os êxitos mais conseguidos, nacionais e internacionais, do meu currículo desportivo.

Na canoagem encontrei os fios relacionais fundamentais para a textura dos mais gratificantes encontros humanos que me calharam na vida. Na canoagem, encontrei os seres humanos mais importantes que deram mais sentido e consistência à minha conturbada existência.

Após quase 4 anos de empenho total e incondicional na aventura militar e ultramarina Portuguesa, regressei à Pátria em 1972, com a elevada sensação de dever cumprido. Não questionei, nem quis questionar as razões da Pátria, e assumi-as como minhas sem tergiversações. As razões dessa atitude plasmá-las-ei em escritos futuros.

Regresso angustiado que foi tempo de encontro dos amigos, chorando uns perdidos para sempre nos campos de batalha, amparando outros que regressavam a penates magoados no corpo e no espírito. A guerra, justa ou injusta, nunca nos deixa intactos. Toma-nos sempre uma parte secreta da alma.

Vim encontrar caras novas. O Jorge Estevão era uma delas.

Era um miúdo (13 anos), mas rapidamente o acolhi no areópago das minhas amizades, ainda sem saber que era filho de um bom colega e amigo que eu tinha no banco Pinto Magalhães onde comecei a trabalhar imediatamente após o regresso da Guiné.

Tudo no Jorge Estevão era classe, respeito e elevação comportamental. O seu valor desportivo era inquestionável. Nas classes jovens ganhou tudo o que havia para ganhar; quando chegou a sénior, as premências da vida não lhe permitiram o treino consequente e sistemático e passou a ter na canoagem não o seu “brinquedo” de eleição mas sim um agradável momento de lazer que praticava esporadicamente.

Relembro com carinho as aventuras que vivemos a 2. Lembro-me recorrentemente da primeira – a frustrada tentativa de descida do rio Douro em kayak desde Miranda do Douro ao Porto, em 1975.

O Jeremias, meu colega da Escola de Instrutores de Educação Física do Porto, levou-nos a Miranda do Douro, após termos pernoitado em sua casa em Alfândega da Fé. Partimos de Miranda e logo no primeiro dia chegamos à barragem de Aldeia d’Ávila, ultrapassando, com os barcos às costas, as barragens de Picote e Bemposta. O esforço para o Jorge não lhe provocou mossas especiais pois estava treinado mas eu, sem pegar numa pagaia há mais de um ano, fiquei com DOMS precoce desde os cabelos às partes mais distais das unhas dos pés. DOMS, significa delayed onset of muscle soreness, ou seja sensação retardada de desconforto muscular, que em mim não foi nada retardada, manifestou-se no próprio dia.

Chegados à barragem de Aldeia d’Ávila os guardas-civis espanhóis pediram-nos os documentos que não trazíamos com medo de os perder. Os “galegos” disseram que só passávamos com autorização da guarda-fiscal portuguesa. Toca a subir, já de noite, um monte abrupto sobranceiro à barragem para chegar ao posto da guarda-fiscal onde pernoitámos fruto da boa vontade dos guardas portugueses.

De manhã, fomos à aldeia de Bruçó, telefonar para o comando da guarda de Miranda que deu autorização aos guardas do posto para nos passarem um papel a dizer que estávamos autorizados a descer o rio.

Toca a descer, a pegar nos kayaks, atravessar os longos túneis da barragem espanhola, e ir apresentar o documento aos polícias-controleiros do reino de Castela. Estes deram anuência e queriam que nós viéssemos para trás para passar pelo lado português, verdadeiro caminho de cabras de muito difícil acesso ao rio. Eu disse que sim. Dei ordem ao Jorge, que ficou cheio de medo, para correr até ao rio, e com os galegos a berrar não sei o quê, chegamos à beira d’água.

Os tipos lá de cima apontaram-nos a espingarda, e eu, numa atitude de valentia bacoca, apontei o traseiro para eles atirarem. Não atiraram, ainda bem.

Imediatamente a seguir à barragem, parámos numa quinta do lado de Portugal, que pertencia a um amável sujeito do Porto, que nos deu fruta, pão e água, e toca a “kayakar” até à barragem de Saucelle.

Ultrapassada com os barcos às costas, lá fomos de abalada até Barca de Alva, onde pernoitamos na pensão da estação. Mal entrámos, o gerente estava a ler o “Jornal de Notícias”, e, olhando para nós, disse-nos: “Não me digam que vocês são estes malucos que o jornal anuncia que estão a descer o Douro?” “Somos.”

Fez-nos um preço porreiro pela janta e pernoita. Na manhã seguinte, já com o sol alto, avançamos até ao Pocinho onde cheguei todo roto em progressiva degenerescência física e psicológica. Devido aos acidentes do percurso (correntes selvagens a desembocar entre rochas intransponíveis) tivemos de fazer alguns trajectos pela margem com os barcos às costas. Lembremo-nos que nesta altura não havia barragem do Pocinho e a da Valeira ainda estava em construção, por isso rio livre e selvagem.

Dormimos no Pocinho em casa de um ferroviário com quem entabulámos conversa e que foi duma extrema gentileza. No outro dia, começámos cedo a viagem. Uns quilómetros mais abaixo, numa estação de caminho-de-ferro abandonada, fartei-me de comer figos que estavam um pouco quentes, mais umas uvas que não lavámos. Resultado, um “descomer” explosivo que me deixou a zona esplâncnica em revoltosa.

Numa curva do rio, comecei a descomer no início duma praia de seixos; as moscas começaram-me a picar o rabo, e eu descomia e fugia para mais abaixo, descomia e fugia até a praia acabar. O Jorge só se ria. Com imensas cólicas, chegámos às obras da barragem da Valeira e subimos à boleia até S. João da Pesqueira.

Passei uma noite cheio de febre. De manhã, fomos de abalada até ao Pinhão, onde desistimos pois eu não podia nem andar. Regressámos ao Porto de comboio. O Jorge com mais uma demonstração da elevação do seu carácter aceitou com bom espírito a frustração de não termos cumprido o almejado. Ficou para depois, para mim.

Ele não mais desceu o Douro, pois regressou cedo ao Olimpo onde, de certeza, mora junto dos outros deuses desportivos, após um treino no rio Ave quando preparava o seu regresso à competição.

Os deuses querem que os melhores morram cedo para nós os recordarmos sempre pletóricos de força e juventude.

Opinião

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