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20 Nov 2013, 18:04

Texto de

Opinião

A verdadeira reforma do Estado

O Estado é agora esse homem novo que vemos ali, sentado naquele banco a dar milho às pombas. A Banca continua no ativo, ocupando, com a Ganância, o lugar que outrora era do Estado.

Imagem de perfil de Simão Mata

Simão Mata é psicólogo, mestre em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça pela Universidade do Porto e estudante de doutoramento em Psicologia na mesma instituição. Os seus interesses profissionais e de investigação situam-se entre o fenómeno droga, a marginalidade urbana e a exclusão social. Vive na Maia, mas passa a grande parte do seu quotidiano no Porto. Gosta de cultivar uma atitude “flâneur” pela cidade, palmilhando becos, ruas e avenidas. Por vezes, tem a mania que é poeta e aparece mascarado com o pseudónimo “Pedro da Silva”.

Idoso no Jardim de São Lázaro

Foto: Arq/Miguel Oliveira

Um homem sentado num banco de jardim dá milho às pombas que caminham aleatoriamente de olhar fixo no chão. Trata-se de um homem novo, contrariamente aos restantes homens que ali estão a jogar às cartas enquanto outros, sentados nos bancos de jardim, conversam e riem. Este homem chama-se Estado e tinham-lhe, há poucos dias, metido os papéis para a sua reforma.

Trata-se, portanto, da verdadeira reforma do Estado. E a reforma chegara-lhe tão cedo! No estado em que estava o Estado, nem sabia muito bem o que era isto da reforma. Na verdade, nem forças tinha para pensar no que quer que fosse, limitando-se apenas a olhar para o vazio, por razões que já se perceberão de seguida.

Trabalhava numa modesta fábrica têxtil, ganhando pouco mais do que o salário mínimo. Tinha de trabalhar muito para ganhar aquela côdea e a sua família, numerosa, via no seu trabalho a única fonte de rendimento. Este Estado era, portanto, pobre até meter dó. Mas ele achava que um dia as coisas melhorariam. E melhoraram mesmo. Num dia em que estava a sair da fábrica, na altura em que se apagou a última luz da zona de produção, ouviu a voz do chefe no escuro dizendo que queria falar com ele sobre a sua intensa produtividade nos últimos tempos. De facto o Estado era bom trabalhador, era mesmo conhecido pelos colegas e pelo chefe como pontual, assíduo e empenhado nas tarefas. Recolheram-se ao gabinete do chefe e, para sua surpresa, após anos, este aumentou-lhe o salário. O tempo tanto moeu na sua mó que o Estado chegou mesmo a assumir a chefia da fábrica, quando o patrão adoeceu e este não tinha mais família para passar as diligências inerentes à gestão.

Ganhou bastante dinheiro na altura. O suficiente para as pessoas da aldeia, que eram pobres e famintaa, o invejarem. Mas ele não se ralava. Não podia era sair à rua, havendo por parte dos aldeões um surro-surro do pior: “que aquilo é que era viver, que agora que era rico não ligava a ninguém” diziam as vozes baixinho sempre que o viam passar ostensivo nos caminhos da aldeia.

Mas como o Estado era pouco dado às letras e aos números (na verdade pouco mais sabia que ler e escrever) e o trabalho se avolumava na sua secretária em variados montes de papéis, sentiu a necessidade de contratar alguns aldeões para o auxílio na governação da fábrica. Acercou-se da ajuda da Banca, a rapariga mais esbelta da aldeia, que seduzia qualquer homem que lhe lançasse o olhar; convidou ainda a Ganância, uma velha beata que conhecia a aldeia de trás para a frente, que ficou responsável pelo departamento de recursos humanos da fábrica.

Este Estado, reconheciam-no todos os habitantes da aldeia, tinha um grande defeito: uma tendência para se deixar influenciar pelas entidades alheias, pelas opiniões dos outros. Faltava-lhe uma personalidade forte, capaz de dura assertividade e poder de decisão. Foi então, devido à sua simplicidade no pensamento, que, quando deu por ela, tinha já a fábrica no charco e, deixando-se hipnotizar pelos atos de sedução da Banca, que o seduzia a toda a hora e momento, quer na fábrica quer fora dela, não conseguiu mais dominar a atração e entregou-lhe de mão beijada o posto de chefia, que ela tanto queria e auspiciava. A Ganância aliou-se à Banca, ficando as duas numa espécie de liderança bicéfala que até hoje persiste.

A vida do Estado foi piorando de dia para dia. A sua família passava já muito mal; batiam à porta do vizinho para ver se ele lhes arranjava algum sustento! O Estado, esse, vendo-se ferido pela traição da Banca e da Ganância, e observando a sua família em casa a padecer as consequências dos seus atos, entrou num processo de tal definhamento mental que começou a ouvir umas vozes esquisitas, aliadas à pouca motivação para fazer o que quer que fosse, perda acentuada de memória e fala claramente incoerente. Nada de comida lhe ia à boca, nem água, nada. Ficava demasiado tempo atónito, sentado, olhando para um vazio que só ele sabia qual era.

Estava esquelético, e já não era o Estado gordo que tantos diziam que era. Por arrasto da família, foi levado ao médico da aldeia e este diagnosticou-lhe um esgotamento nervoso, passando-lhe uma carta para que fosse ao colega da cidade. O médico da aldeia disse à mulher do Estado que seria melhor meterem os papéis para a reforma por invalidez, que com o problema de saúde que o Estado tinha juntamente com o tempo que descontara para a Caixa, devia dar para uma reforma pequena, de sobrevivência. Foi o que a mulher fez, porque ele não era capaz de nada.

A mulher encaminhou o Estado à Segurança Social para meter os papéis para a Reforma. Na fila, na verdade uma fila enorme, encontrou-se com a Escola e a Saúde, duas amigas da aldeia. Também elas estariam a tratar das suas reformas? Elas cumprimentaram-no, mas ele, devido ao estado atónito em que se encontrava, não sabia quem eram. A mulher explicou-lhe; ele continuou a desconhecer, fixado no vazio que só ele sabe qual era.

E foi assim que se processou a verdadeira reforma do Estado. O Estado é agora esse homem novo que vemos ali, sentado naquele banco a dar milho às pombas que caminham aleatoriamente de olhar fixo no chão. A Banca, essa, continua no ativo, ocupando, juntamente com a Ganância, o lugar que outrora era do Estado na gestão da fábrica. E, mais grave que isso, continua na sua eterna labuta de hipnotizar almas pueris que se submetam ao seu olhar sedutor enquanto desenrola um riso frio de hiena na imensa escuridão da noite.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. 

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