11 Out 2013, 16:57

Texto de

Opinião

A tempestade perfeita na sua vertente positiva

Há dias que nos reconciliam com a vida. O último fim de semana de Setembro foi perfeito, em várias dimensões, e permitiu limpar um pouco do lixo que habitualmente se esconde debaixo dos tapetes.

Foto: Arq/Carlos Romão

Há dias que nos reconciliam, pelo menos momentaneamente, com a vida, com os outros e connosco. O último fim de semana de Setembro foi perfeito, em várias dimensões, e permitiu limpar um pouco do lixo que habitualmente se esconde debaixo dos tapetes.

Foi um fim de semana especial marcado fundamentalmente pelas eleições autárquicas. Mas outras acontecências se acrescentaram e deram-lhe um cunho inaudito de grandiosidade.

Fez-me muito bem à alma ver o espanta-patrulhas da Madeira a pagar em apoucamento político a lógica de desmando e desvario que caracterizou dezenas de anos da sua autocracia despudorada.

Acresce que na semana anterior a dupla Emanuel Silva- João Ribeiro tinha-se sagrado campeã do mundo em canoagem.

O país cresce e está saudável.

Gostei de ver o “baixinho” de Vila Nova de Gaia falhar a sua tentativa de salto duplo. Vê-lo regressar ao limbo do esquecimento (esperemos que mergulhe bem fundo no rio Lete) a lamber as feridas de tanta porrada é dos prazeres que um simples cidadão, que tem como única virtude política um acrisolado amor à sua Pátria, merece ter nestes dias de ludíbrio. Também o ex-marido da trânsfuga “noticiária” (RTP para a TVI) que andou a vender por Lisboa fora afetos a preço de saldo, apanhou uma banhada das antigas como sói dizer-se, ou seja carimbou o passaporte para o país da mediocridade política onde é militante e presidente honorário.

Acresce que João Sousa, após sofrida e genésica vitória no ATP da Malásia, retirou o ténis português da pré-história e catapultou-o para um patamar de qualidade que espero seja bem aproveitado pelos dirigentes desportivos cá da urbe, democratizando o ténis em definitivo. Com os meninos da Foz e os meninos da Linha não vamos lá das canetas. Necessitamos de gajos com fibra que cheguem ao ténis com a raiva dos campeões que raras vezes nasce em berços de ouro. Poucas vezes sofri tanto frente a uma televisão. O ténis favorece, como nenhum outro desporto, os altos e baixos emocionais. Gostava de ver a continuidade deste momento épico.

O país continua a crescer e continua saudável.

Um independente, um homem do Porto, culto e refletido, que vê a política como causa nobre e não como proveito pessoal ganhou às armadas partidárias abrindo um espaço de afirmação de cidadania que urgia neste maravilhoso país e na cidade única que me viu nascer. Nasci na rua de Camões atrás da Câmara Municipal e, do meu berço, vou estar a olhar para o Rui Moreira esperando que os seus acertos sobrelevem os desacertos. Seres políticos perfeitos não existem e já nos ensina Popper o que importa não é ter certezas mas afastar cada vez mais as dúvidas e o erro. Acredito que Rui Moreira vai mudar para melhor a minha cidade.

Em Lisboa, um cidadão, com profunda ligação partidária (por isso o mal não está nos partidos mas em algumas pessoas que deles indevidamente se aproveitam) ganha por 10-0 a câmara de Lisboa. Parece que ser rigoroso e seletivo nas despesas não é incompatível com o crescimento que alguns querem mandar para as calendas gregas. A res publica também pode e deve ser fautor de crescimento sustentado. Assim a saibam governar.

Que dizer do Rui Costa? Que entrou, no final de uma época em glória, na galeria dos heróis desportivos lusitanos. Carlos Lopes abriu a porta da excelência e outros portugueses não se fizeram rogados e franquearam-na com o seu empenho e valor – Rosa Mota, Aurora Cunha, Fernanda Ribeiro, Beatriz Gomes, Manuela Machado, Nelson Évora, Emanuel Silva, João Ribeiro e agora Rui Costa.

O país continua a crescer e está cada vez mais saudável.

Continua a crescer saudável apesar de alguns sinais de “cancro de pele” que esperemos sejam superficiais e não malignos.

Tínhamos a grande doença bem instalada. Chama-se crise da dívida soberana, com o maldito défice que a acrescenta em “tormentoso e caudaloso rio”, e a austeridade que nos potencia a osteopenia da carteira. Esta tríade, que agasalhamos com “carinho” como um filho pródigo que regressa a penates, é por si só suficiente para nos esconder o sol de inverno, não tínhamos necessidade de outras contribuições menores.

Ei-las:

Lamentável que o povo de Gaia tenha ido atrás de um fogo-fátuo mediático – Guilherme Aguiar. Um salta-pocinhas da política que pertence à subespécie dos que não-cuidam-onde-estar-logo-que-estejam. Quase que ganhava, não pela valia da sua mensagem política, se a tiver, mas porque aparece muito na televisão. Cuidado Gaienses. Já tivemos um demagogo populista. Chega um de 100 em 100 anos.

Lamentável também a posição dos comunistas ao chamarem de protofascistas os defensores da limitação dos mandatos. Querem renovação das políticas mas as pessoas podem ser as mesmas. Não é assim senhores da foice e do martelo. Muito tempo no poder altera a alma até dos mais sonhadores revolucionários. No Alentejo muito se queixam do nepotismo aberto, também presente nas câmaras comunistas. Não têm gente nova nas berças do latifúndio profundo ou não acreditam lá muito nos seus jovens? Bernardino e João serão exceções?

Mal andou o Tribunal Constitucional, ao fazer jurisprudência sobre uma dúvida que só é dúvida na excelsa cabecinha dos conselheiros que estão inexoravelmente marcados pela sua cor partidária. Não tiveram coragem de ver que o legislador queria mesmo que o regabofe do nepotismo político fosse, senão eliminado, pelo menos mais difícil de prolongar, abrindo a porta a uma participação mais abrangente.

Os partidos são fundamentais para a saúde política de Portugal. As suas estruturas organizadas, no entanto, tornaram-se fechadas ao fluxo de ideias novas e aos novos posicionamentos que a sociedade desenvolve. A renovação partidária não pode ser feita somente através dos quadros oportunistas das juventudes partidárias. Tem de ser feita através da abertura ao sentir renovado das populações, ouvindo-as, e estabelecendo com elas diálogos que ultrapassem o imediatismo das campanhas eleitorais cooptando para a coisa pública os mais aptos e empenhados.

Eduardo Rodrigues ganhou em Vila Nova de Gaia. Não o conheço pessoalmente mas sei que é um académico, com profundo empenho político e com ideias claras para a cidade. Votei nele pela simples razão de que não prometeu nada. Como poderia prometer se tem a casa a arder com os desmandos da cigarra antecedente. Só espero que lance pontes de saudável colaboração com Rui Moreira e ambos saibam reivindicar para o Norte os meios justos que correspondam à importância política, sociológica e económica desta parte de Portugal.

José Agusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. José Pimenta says:

    A escrita atrai, pela construção, pela forma, nos primeiros parágrafos. Mas, para alguém mais atento a mais que forma, a estrutura revela-se em menos de uma frase. O louvor a coisas tão distintas como triunfos desportivos e resultados eleitorais até passa, nem que seja pelo hábito do discurso intelectual em que o discurso funciona como ilustração. Onde se nota que a estrutura é deformada, e por opção, é quando trata casos semelhantes como distintos, como se o rio fosse tão intransponível como na era do Condado. Rui Moreira é tão independente como Guilherme de Aguiar mas com uma nítida e clara desvantagem (ética),pois aceitou o apoio partidário do CDS-PP sem o renegar. E tanto assim é que os dois quiseram correr “por fora” do sistema como quem anda debaixo de beirais para não se molhar com o seu passado, ligado às gestões passadas dos dois municípios. Já sobre as posições do PCP, nada a opor. São, de facto proto, senão pré-fascistas as medidas destinadas a limitar os mandatos, sejam eles quais forem. Essa paternalismo, típico do Estado Novo, que protege os cidadãos das suas próprias escolhas é tudo menos democrático, assim como a proliferação de decisões judiciais para atalhar debates de ideias. O nepotismo não é algo inerente à sucessão limitada de mandatos, mas ao uso que deles se faz. Rui Rio praticou o nepotismo com limitação de mandatos.
    Por isso, e para rematar, Rui Costa e João Sousa fizeram um esforço pessoal para vencer. Rui Moreira escondeu quem o empurrou, e financiou, para vencer.

    • José Pimenta says:

      Errata

      Onde se lê: “discurso intelectual em que o discurso funciona como ilustração” deve ler-se “discurso intelectual em que o desporto funciona como ilustração.”

  2. T. Fernandes says:

    Os comunistas sempre tiveram uma certa apetência para gerontocracias perpetuadas no poder. O que é verdade para uns partidos é verdade para todos, e nisso o Professor José Augusto tem razão. Também considero que Rui Moreira, apesar de ter o apoio do CDS, é mais independente que muitos independentes que apareceram em cena. Espero no entanto, para ver pois não há certezas sobre os homens e as coisas.

    • José Serdoura says:

      Acho que ambos tivemos uma grande noite eleitoral.
      Acresce que no concelho onde vivo, o PSD que governava hà 20 anos também perdeu ( Valongo )

  3. Domingos Silva says:

    Os políticos, quase todos eles sedentários, senão veja-se o perímetro abdominal exibido por muitos deles na assembleia da república, nas autarquias e nos ministérios, sempre se aproveitaram do fenómeno desportivo para se vangloriarem socialmente. Muitos deles, claramente doentes (sim, porque a obesidade é uma doença!) e a precisarem de tratamento urgente. Não basta apregoar a saúde dos seus concidadãos, é preciso praticar comportamentos de saúde, e ter saúde! Este misto de desporto e política, que em jeito de síntese o Doutor José Augusto apresenta, remete-me para a lembrança do bem (os desportistas) contra o mal (os políticos), dos saudáveis contra os doentes, dos adorados contra os detestados socialmente, dos que trabalham arduamente contra os boys que se empoleiram, dos que lutam pela vida contra os paradinhos do sistema, …
    Aprecio todas as conquistas dos desportistas.
    Domingos Silva
    18-10-2013

  4. Branco says:

    Caro Professor
    Como ponto prévio gostaria de esclarecer que deixei de exercer o direito de voto…. Poderia explicar o porquê da desta minha opção mas não o vou fazer porque o meu objectivo é comentar a sua opinião.
    Assim, olhando para os seus textos e particularmente este, verifica-se que dispara certeiramente com a pontaria de um sniper, mas mas expondo-se com a frontalidade e coragem que são características de um verdadeiro ranger.
    Mas o que me motivou a vir aqui deixar o meu comentário foi o resultado obtido na cidade do Porto.
    Vejo que tem muitas expectativas quando ao candidato vitorioso, mas ao contrário do seu entusiasmo que não partilho, e procurando um adjectivo o menos cáustico possível, digo-lhe que sou céptico quanto às expectativas de gestão do Rui Moreira. E sou céptico porque nas costas desta candidature estão sombrias silhuetas que no meu entender são os verdadeiros culpados do estado em que se encontra o Porto.
    Uma dessas silhuetas é o Sr. Rui Rio que por detrás de uma máscara de competência e honestidade, no meu entender falacciosa, demoliu habitações e deslocou famílias. Refiro-me como toda a gente sabe aos bairros de S. João de Deus e do Aleixo,justificando-se com o tráfico e consumo de droga. Claro que estes problemas que tantas famílias afectam não desapareceu da cidade, apenas se deslocaram para as zonas periféricas,mas com a certeza que as zonas demolidas ficaram livres de pessoas e bens onde as imobiliárias poderão, quando o mercado ditar, deleitar-se com os lucros que estas zonas poderão gerar. Depois pertence também a responsabilidade ao executivo do Sr. Rui Riio o estado de pobreza actual da prática desportiva. Veja-se o estado moribundo em que se encontra a malha associativa. O que é feito das verbas que são distribuídas pelo estado à autarquia para a prática desportiva. Gasta-se nos sucessivos alcatroamentos da zona occidental da Av. da Boavista, para as corridas dos carrinhos. Uma outra silhueta é o CDS que também esteve neste executivo. Será que os familiars dos senhores do CDS vão ficar nos cargos de administradores das fundações?
    Mas estas silhuetas são apenas o que é fácil de de apontar e criticar, pelo que pergunto qual a origem destas sinergias que levaram á conquista da câmara?
    Será que a origem não está na SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana? E porquê? São questões sobre as quais poderiamos especular…
    Apenas deixo aqui alguns factos… Rui Moreira foi presidente, Rui Rio barafustou com o governo porr causa da SRU… e depois era ver na campanha os apoiantes…..
    Portanto caro Professor vamos esperar para ver….

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