10 Jan 2013, 17:48

Texto de

Opinião

A psicologia da miséria

As divisões que se têm vindo a acentuar na sociedade portuguesa entre o precariado e o salariado são falaciosas, levando-nos à esparrela neoliberal de voltar trabalhadores uns contra os outros.

São várias as coisas que me levam a escrever esta crónica. Uma delas é o aumento de pessoas desempregadas que fazem parte da minha rede de familiares, amigos e conhecidos, fazendo com que a realidade apresentada nas televisões, nas rádios e nas internetes me faça mergulhar no contexto das minhas relações mais próximas. Mesmo quando se fala no assunto durante uma situação do quotidiano, quase sempre alguém conhece alguém que está nessa situação, o que traduz a generalização dessa realidade nas sociedades contemporâneas. E a casuística do desemprego tem aqui um papel importante na explicação que o homem-comum encontra para explicar, compreender e encontrar soluções para o flagelo. A tendência para a individualização de uma situação de desemprego é tentadora. Como o é, aliás, qualquer fenómeno que está no indivíduo, embora a sua génese possa não o estar.

A este engodo não resiste nem aquele que está desempregado, nem o que está empregado. O primeiro, que se esforça por arranjar um emprego ou um trabalho a todo custo, quer seja precário ou não, a contrato ou na base da informalidade e verifica que não consegue, oscila numa plêiade de sentimentos que vão desde a inutilidade, o desespero, a raiva e a depressão, passando por breves momentos de sintonia emocional para com aqueles (muitos) que partilham a mesma situação social; o segundo, ouvindo tais aumentos no desemprego fica amedrontado de que seja ele o próximo a contribuir para o referido aumento.

Daí que não seja de estranhar que os trabalhadores façam de tudo para que não sejam eles os próximos a contribuir para o engrossar da taxa de desemprego, podendo mesmo admitir um corte nas suas condições e valor do trabalho a troco da garantia do seu posto – isto porque existe sempre quem “esteja pior do que eles”. E o problema de tudo isto é que existe mesmo.

Mas entre o salariado e o desempregado existe toda uma franja social precária, algo situada nos interstícios entre o emprego formal e o desemprego permanente ou temporário. A situação de desemprego massivo que atravessamos em Portugal (os dados do Eurostat situam a taxa de desemprego em Portugal nos 16.3% em finais do ano transato) está, contudo, a aumentar também este precariado, revertendo simultaneamente na opinião pública a lógica da luta pelos direitos laborais, colocando-os no imaginário colectivo como uma questão de regalias, mais do que de algo que a nossa civilização duramente conquistou. Daí que estes tempos de crise têm servido para muita coisa, talvez para se colocar em marcha aquilo que sempre se quis mas nunca se conseguiu. E no centro de tudo temos o desemprego. Mas falar no desemprego é tão tentador que devemos resistir. Falemos, pois, no emprego.

Os empregos têm-se tornado, quer para os decisores políticos, quer para o cidadão comum, uma categoria social pouco clara, confusa, geradora de ambiguidades. O emprego, o desemprego, o empregado e o desempregado formam, digamos assim, uma nuvem representacional, cujas opiniões em torno das referidas palavras tem acentuado clivagens significativas entre as pessoas, consoante o seu posicionamento, que vai desde o desempregado sem qualquer fonte de rendimento até ao trabalhador de plenos direitos.

Enquanto que para uns para ter um emprego basta deslocar-se a um sítio para fazer dinheiro, importando pouco se de manhã, se de tarde, se de noite, sentado ou de pé, pouco importa, desde que a atividade reverta num pagamento depois da jorna, para outros o importante é discutir se o governo divide ou não o subsídio de natal em duodécimos, se vai amortizar em pequenas prestações o corte verificado, introduzindo o Governo nestes últimos trabalhadores um verdadeiro engodo relativamente à questão essencial, diluindo o impacto do referido corte não nos 12 meses do ano, mas antes numa mentalidade pseudocristã que tende a minorar defeitos sociais profundos e duradouros.

Enquanto uns, diríamos, tratam de trabalhar a qualquer custo, a qualquer preço, porque a necessidade e o desespero imperam, e onde a subjugação a as exigências laborais são aceites a todo o custo sob pena de perderem aquilo que elas mesmas se viram forçadas a designar para elas mesmas como um emprego, outros deslocam-se para as manifestações, para as revoltas de rua. Se os outros, os precariados, se deslocassem às manifestações ou às revoltas, ainda que muita convicção tivessem em lá estar, porque também andam revoltados pela miséria do dia-a-dia mas não podem transparecer, não poderiam fazê-lo porque muito provavelmente no dia seguinte encontrariam sentados no seu lugar outra pessoa a executar o seu serviço por eles e passavam da situação de miséria em que se encontram para uma situação de miséria ainda mais agudizada. A situação de enorme vulnerabilidade em que se encontra este “precariado” leva a que este se acomode à miséria, preferindo a miséria à desgraça. E é lamentável como é que as questões do precariado permanecem periféricas do debate público. Mesmos nas alturas em que aparecem essas discussões, surgem opiniões extremadas – ora se afirma, por um lado, que se tem que acabar com aquilo, exigindo a cessação imediata destas novas configurações laborais, o que levaria o precariado a abandonar a situação de miserável para adoptar a identidade de desgraçado; ora se sustenta, por outro, a defesa deste tipo de serviços, justificando que, por muito maus que sejam, acabam por representar oportunidade para quem os realiza e um bom investimento para quem os solicita, gerando por seu lado a eterna manutenção da pobreza do precariado. E é por isso que este precariado se sente mais revoltado do que o salariado. Porque aquele sente os direitos deste último como regalias; o salariado, por seu turno, entende isso como uma ofensa aos seus direitos conquistados e consagrados. E é por isso que quando qualquer precariado sabe do corte de alguma “regalia” aos “trabalhadores de plenos direitos” sentem um enorme fulgor no peito, ficando a sensação de que se está a fazer justiça, que se eles nunca tiveram esses direitos, os outros também não devem ter.

Não existe vontade, nem da parte do Governo, nem dos empregadores, nem dos salariados, nem dos precariados, nem dos setores mais às esquerda ou à mais direita, para que o problema se resolva. E os exemplos da precariedade não faltam: as empresas de trabalho temporário, nomeadamente a Egor, que colocam trabalhadores a trabalhar 8 horas diárias para receberem um valor mensal de 180 euros mensais, os Pais-Natais a 43 cêntimos/hora que tentaram animar o nosso Natal, os eternos call center que se disseminaram nos últimos anos como cogumelos, tendo “operadores” a trabalhar até á completa exaustão a troco de trocados no final da jorna, as entrevistas de empregos mais ao serviço da exclusão do que propriamente da inclusão, como aquelas que colocam “quebra-cabeças” ao entrevistado durante a entrevista ou uma situação-problema inesperada para que este resolva em 10 minutos aquilo que no emprego a que se está a candidatar será para realizar em meia hora, tendo como finalidade última o gozo do empregador pela desgraça de quem procura trabalhar. Estou certo de que estas ratoeiras estão ao abrigo não de um departamento de recursos humanos como se autodesignam mas antes de recursos desumanos como não têm coragem de admitir.

Mas estes são apenas alguns exemplos que explicam a massificação de uma população precarizada, que vai desde o estudante universitário que não tem dinheiro para pagar o empréstimo que fez para pagar as propinas do curso que está a tirar até ao desempregado da construção civil que trabalhou anos a fio nas obras e que se vê agora na miséria laboral, passando pelo dr. fulano que acabou o curso há anos e nunca arranjou emprego, nem dentro nem fora da área. Não haja dúvidas que este precariado corresponde a um conjunto de trabalhadores como os outros, que se vêem forçados a trabalhar em condições miseráveis para auferirem salários também miseráveis. Tudo isto porque as empresas que as promovem são, também elas, miseráveis por natureza. E tudo isto se passa num Estado também ele miserável. Mas, utilizando as palavras deste precariado, “mesmo precário, se não trabalhar não como”.

Pretendo dizer finalmente que as divisões que se têm vindo a acentuar na sociedade portuguesa entre o precariado e o salariado são falaciosas, levando-nos à esparrela neoliberal de voltar trabalhadores uns contra os outros. Se, por um lado, trabalhar a recibo verde, ou em regimes de trabalho mais informais, constitui uma oportunidade de trabalho efetiva porque a necessidade manda a perna, por outro, não podemos pactuar com a dita estratégia neoliberal manipuladora de colocar os que têm um posto de trabalho efetivo arredados dos direitos que lhes foram consagrados ao longo da nossa democracia.

Esta divisão parece-me, aliás, uma estratégia tenaz e subtil exercida ao serviço das políticas de direita que têm vindo a ser executadas no nosso país desde o período pós-revolucionário e que vem desigualar os trabalhadores entre si, colocando-os em guerra, porque por muito diferentes que sejam do ponto de vista contratual, o valor do trabalho constituiu para a maior parte a principal ou mesmo a única fonte de rendimentos para viver ou para sobreviver. E é lamentável como é que se discute com tanta determinação a diminuição do IRC nas empresas com vista a garantir a competitividade da nossa economia e viabilizar o investimento externo no nosso país, e se faça tanto choraminguice para se aumentarem os salários mínimos do salariado para valores ainda míseros de 545 euros.

Porque a mensagem subliminar de tal inércia no aumento é exactamente a generalização do tecido produtivo precário, que coloca o salariado entre a situação de submissão aos baixos salários ou o risco de ficar desempregado ou precariado. Mas o que eu não entendo mesmo, e acreditem que me esforço por acreditar, é como é que o saldo das privatizações da “era Passos” excede largamente o valor estimado pela troika em cerca de 900 mil euros. Não hajam dúvidas de que este Governo vai mesmo para além da troika. E dos meus limites também. Se fossem pessoas de boa-fé estes que nos governam mas que não conhecem o país, acho que o precariado se diluía definitivamente no salariado, com salários dignos e justos para todos e respeitadores da dignidade humana. Talvez aí se abrissem as portas que Abril abriu e que muitos agora ousam fechar.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

  1. Sara Gostei muito, deste voz says:

    Gostei muito, falas-te o que eu nunca tenho coragem de dizer. Louvo o todos que apesar desta maldade que nos fazem todos os dias ainda se levantam e buscam a dignidade roubada.

  2. Diogo Rafael says:

    Uma visão muito interessante sobre as tensões invísiveis (mas sempre presentes) entre os trabalhadores de plenos direitos e os precários (em tudo, mesmo tudo, excepto no oxigénio que respiram, esse ainda é igual, nem mais nem menos precário). Este regime, precário, foi sempre meu conhecido e aliado (mas rapidamente passou adversário) por todos as ocupações profissionais que tive. Ao longo de 25 anos de existência sempre acreditei (tão cego que estava!) que o esforço, a dedicação e o trabalho me conduziriam ao sucesso. E assim fiz (antes não fizesse!).Estudei, empenhei-me, envolvi-me, enfim trabalhei, acreditando em algo que não conseguiria definir naquele momento, mas sabendo (disso tinha a certeza) que alcançaria um futuro melhor. Chegados a 2010, termino o curso. O diploma indicava que tinha terminado o mestrado em psicologia. Passado poucos meses, a cédula profissional da ordem indicava que, a partir daquele exacto momento, era efectivamente psicólogo. E eu acreditei.
    2010 e tantos conceitos e ferramentas que, timidamente, manejava e que julgava essenciais a quem contrata profissionais em psicologia. Ferramentas e uma vida pela frente! Mas, à frente, não estava nada e, muito contra a minha vontade, nada estará. Um ano a recibos verdes para uma instituição púlica, dois ‘actos isolados’ para outra instituição (também pública) e 2 ou 3 trabalhos que, agora sei, foram de borla (enfim, quando se é jovem e se almeja uma vida melhor, o ‘não’ perde a batalha pouco gloriosa com o ‘deixa estar que eu trato disso!’). Não mais trabalhei como “psicólogo”. E, só poucos sabem, como receio que tal não volte a acontecer. Agora, a vida parou, literalmente. Todos os dias “morre-nos” algo, não sei o quê, mas sinto que o abismo já acenou de mais longe. Esse mesmo abismo que pisamos todos os dias e que nos rouba o domínio da arte (psicologia), deixando-nos mais pobres, inúteis e desalmados.
    As ferramentas e conceitos psicológicos que antes achava dominar, foram agora substituídos pelo vazio e pelas dores físicas causadas por outras ferramentas (estas bem mais reais e palpáveis). O processo de aprendizagem foi o mesmo, o engenho de dominar o ofício está presente igualmente. “A vida é dura nas obras…”, diz o meu pai, e, desde cedo, pude comprovar isso sempre que lhe apertava a mão com força e sentia os danos que essa dureza causou na pele. Num meio semi-rural (tão perto e tão longe do centro urbano!), as oportunidades são escassas e a vida conduz a nossa própria vida para trabalhos que outros só veêm na televisão. Não! Cá também há cunhas e malandrices semelhantes para empregos qualificados. As cunhas não querem é nada com gente honesta e coerente. Ora, cunhas só de ouvido, nunca tive o gosto de conhecer uma que seja. Portanto, não querendo a vida que o meu pai me dizia ser dura, fugi dela tão rápido quanto pude. Ela é que não fugiu de mim… trazendo escindido uma “coisa apalavrada, vais, ficas lá até aparecer uma coisa na tua área, assim estás ocupado”. Este foi o contrato que tive. Papéis? Seguro de trabalho? Recibo de vencimento? Para quê Diogo? Não queiras meter papéis ao barulho, aqui trabalha-se a sério, deixa as coisas que aprendeste na faculade lá, na faculdade. Fiquei pouco tempo, tão pouco que não consegui ver bem de que cor era o sol às 05h da manhã quando já estava a caminho da vida e da dureza (de vida, havia pouco ali).
    Hoje, olho para o diploma (que tanto custou aos meus) e sorrio. Nunca teve o uso devido e justo.
    Hoje? Não sei.
    Amanhã? A incerteza que espreita ali ao fundo com uma eventual oportunidade no estrangeiro. E só Deus sabe a força com que fechei os olhos para não a olhar.
    Abraço!
    Diogo.

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