15 Jun 2011, 11:05

Texto de

Opinião

A primavera do nosso esquecimento

O PR esqueceu-se que foi no seu tempo enquanto primeiro-ministro que recebemos dinheiro da UE para deixar de produzir bens agrícolas que permitiriam a nossa autosuficiência.

Cavaco Silva

Foto: Presidência da República

Gostava de me esquecer mais vezes. Era bom que a minha memória me pregasse mais partidas daquelas que me permitiriam levar a minha avante, mas não em tudo. Por exemplo, sou um conhecido “esquecido dos aniversários” e todos os meus amigos me perdoam o esquecimento, mas nunca me esqueci do meu. Bem, e ultimamente, com o Facebook raramente me esqueço dos aniversários dos outros, mas dá para perceber a ideia.

Por exemplo, já nos esquecemos das acampadas. Foi ainda na semana passada que a Câmara de Lisboa fez queixa à PSP pois, no dia de reflexão, estavam uns sujeitos com mau aspecto acampados no Rossio e a polícia, que até então não tinha reparado que havia sujeitos de mau aspecto no Rossio (tirando os que se vestem de igual aos que vão aos comícios do PS em Évora), levou tudo à frente, numa ação entendida como “injustificada”. Claro que nos média nacionais quase ninguém se lembrou das acampadas do Porto e Coimbra, mais pequenas, que se desmobilizaram mais tarde e sem problemas.

A acampada de Lisboa, no Rossio, teve um problema sério: em vez de procurarem a praia debaixo da calçada, os “indignados” deveriam tê-la lavado, à calçada. É que a Câmara de Lisboa e boa parte dos comentadores e dos lisboetas, que raramente vão ao Rossio, esqueceram-se daquilo que qualquer turista sabe, que a calçada está habitualmente (como dizer?) um nojo. Portanto, boa parte dos comentadores esqueceram-se de ouvir os acampados e queixou-se antes do lixo e da desarrumação e assim… Em Madrid, por exemplo, os acampados levantaram a tenda domingo e limparam a Puerta del Sol “para ficar mais limpa do que estava”, anunciaram nos megafones. Ninguém se lembraria que tinham estado ali, não fosse o quiosque informativo que lá deixaram.

Mas não me quero esquecer ao que vim (pudesse eu esquecer-me mais vezes!). O Presidente da República esqueceu-se que foi primeiro-ministro e dos feitos que tiveram os seus governos. É um bocado como eu e os aniversários, mas ao contrário: não se lembra dos seus, mas recorda-se dos dos outros.

Por exemplo, no 25 de abril do ano passado Cavaco Silva lamentou que os portugueses se tivessem esquecido do Mar (assim, com maiúscula), tínhamos de prestar mais atenção ao mar, às pescas, ao turismo, à investigação. Antes disso, na primavera de 2008, tinha chamado à atenção para a economia especulativa e os salários dos gestores. Entretanto, na tomada de posse deste ano, lamentou que os jovens qualificados e sem emprego tenham de arcar com as dívidas do país. Agora, no 10 de junho, o Chefe de Estado lembrou-se de lamentar o estado em que está a nossa agricultura e a desertificação do nosso interior…

Bem, parte da minha memória – se calhar a que se devia ocupar dos aniversários dos meus amigos – funciona um bocado como o Facebook para aquelas datas de aniversário: solta um alerta e faz-me lembrar. Lembrar que quando Cavaco Silva era primeiro-ministro recebemos dinheiro da União Europeia, fundos negociados pelo seu Governo, para deixarmos de produzir uma série de bens agrícolas que permitiriam a nossa autosuficiência. Lembrar que foi no seu tempo de chefe de governo que pagámos para abater barcos e construir junto do mar como se houvesse amanhã, e lembrar quanto gastávamos em I&D no Mar. Lembrar da Regionalização, que está na Constituição e é a(o)diada. E lembrar que governos aprovaram os cursos da maioria dos precários que a 12 de março saíram à rua, antecipando o 15M de Madrid. Ou as privatizações que levaram àqueles salários.

Mas o que eu queria era esquecer-me. Esquecer-me, por exemplo, que ouvi uma crónica brilhante de Fernando Alves esta manhã, escassos minutos depois de ter lido a notícia do Florentino, na página 26 do JN. Queria esquecer-me dessa crónica de Fernando Alves – sobre o agricultor vizinho de Nobre Guedes que, ao contrário do ex-ministro (quase nos esquecemos dele), não conseguiu legalizar a casa com as suas árvores e as suas plantações – para poder ser eu a escrevê-la.

Filinto Melo escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

  1. Eu a juntar a esses esquecimentos, acabo de me esquecer de quando Cavaco dizia ” Eu adoro andar de comboio”, “Que pena não ir até Mirandela”, mas encerrou cerca de 800kms de linha ferroviária ou quando o ouvia incitar jovens e professores a manifestarem-se, resolvi esquecer-me logo de quando o dito ex. PM mandou Dias Loureiro arrear nuns polícias que se manifestavam. Como diz um amigo meu: “O povo de tempos a tempos vai à revisão dos 4 anos , leva um choque e recomeça a contagem”.

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