8 Dez 2011, 16:52

Texto de

Opinião

A noite dos zombies

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Aquele bêbado de garrafa de litro em punho que quase me atropela na travessa de Cedofeita não sabe que é personagem do filme de terror que assombra a noite portuense.

Noite

Foto: Nataniel Diogo

Aquele bêbado de garrafa de litro em punho que quase me atropela na travessa de Cedofeita, frente à Casa do Ló, não sabe que é personagem do filme de terror que assombra a noite portuense. Ele, na verdade, não sabe mesmo nada de tão grosso que está, mas é um dos zombies deste filme.

Seres que passam a mortos depois da uma da manhã ou após sorverem álcool até atingir a taxa de prisão não são os melhores vizinhos para os sobreviventes da baixa, nem que façam da sua passagem uma coisa sazonal. Aos fins-de-semana, a zona junto à Torre dos Clérigos é área de diversão, mas também de conflitos próprios de espaços em que a função residencial se cruza com a recreativa.

Mas a isto chama-se danos colaterais do sucesso. Porque é preciso não esquecer que é de sucesso que se trata. A animação que a abertura dos bares, restaurantes, discotecas trouxe é uma vitória comercial que tornou mais atrativa a cidade. Não se pense que os artigos do “New York Times” caem dos céus aos trambolhões… A movida portuense é um trunfo, nada negligenciável para o turismo e vê-la ameaçada é um terror.

Mas há espaço neste filme para mais um bando de zombies: os políticos e as autoridades, que caminharam através do crescendo do problema como autómatos possuídos pela maldição de nunca prever, sempre reagir.

Agora, entram na fase de estudar os problemas, quando eles há muito que estão estudados, em cidades como Londres ou Barcelona, é só pesquisar ao de leve, como aqui ou aqui. Não é preciso inventar muito, basta copiar, adaptar e de preferência não deixar os problemas atingirem o ponto em que tudo vai ser mais difícil de resolver. Se calhar, também ajudava ter aprendido alguma coisa com a decadência da vida noturna na Ribeira…

E se o poder camarário inventa um grupo de trabalho, a oposição, como bons zombies, calados até agora, caminham para essa armadilha de inoperância de braços estendidos.

Com a bonomia de quem quer ver soluções, acreditemos que alguma coisa de produtivo vai sair dali e entretanto perguntemo-nos o óbvio: porque é que as autoridades camarárias não adaptam os equipamentos (lixo, sanitários) às necessidades da vida noturna; porque é que não se fazem cumprir regulamentos horários; para que serve o Conselho Municipal de Segurança; porque não se estabelecem plataformas de diálogo entre vizinhos e comerciantes; porque não se reforça a segurança e a fiscalização à venda ambulante; porque não se adapta o sistema de transportes…

Se calhar são perguntas a mais para argumento de um filme de zombies.

David Pontes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. alexandre pinto says:

    excelente artigo, david, mas quem poderia resolver este problema, está mais ocupado a vender a cidade a retalho.
    “spoken word”??? festival da faladura isso sim

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