8 Set 2012, 13:33

Texto de

Opinião

A “noite do Porto” e a necessidade de planear e gerir o tempo dos/nos espaços da cidade

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Como se pode continuar a pensar a gestão dos espaços de uso coletivo da mesma forma que se fazia quando a cidade era usada quase só por quem nela dormia ou trabalhava?

Noite do Porto

Foto: Hugo Magalhães

1. Começa mais um ano escolar.

Isso significa muito numa cidade como o Porto, onde a universidade pública (a maior do país) e as mais diversas instituições de ensino superior e/ou especializado são importantíssimos agentes na animação da cidade. Por um lado, isso vai significar aumento significativo nas entradas e saídas diárias (ou de alguns dias); por outro, um aumento importante dos que ficam uns dias ou uns meses.

Na noite do Porto, com o fim do verão, diminuirão os turistas (menos que no Algarve, é certo, já que aqui o sol ou a temperatura da água do mar não são tão importantes). Em contrapartida, aumentarão os estudantes.

Com uns ou com outros (com uns e com outros, direi), o certo é que a noite e a cidade em geral manterão elevado número de habitantes não residentes. Ou seja, são muitos (algum dia se saberá quantos?) os que estão no Porto uns dias ou umas horas de muitos ou poucos dias, mas não dormem (todo o ano) no retângulo de 10 km de comprido por 4 km de largura que constitui o município e que confundimos com a cidade do Porto por associarmos a condição de cidade a um título atribuído administrativamente (o que faz de Sintra não cidade)!

E, todavia, malgrado serem cada vez mais os “visitantes-habitantes”, insistimos em “medir” a cidade pelo número dos que dormem todo o ano (e apenas os do retângulo). E, o que pode ser mais grave, ao mesmo tempo que assistimos ao que eu costumo chamar a “turistificação” da cidade (multiplicação de todo o tipo de unidades de alojamento e restauração, esplanadas, autocarros, …), insistimos em pensar na sua gestão sobretudo a partir dos que residem todo o ano (talvez porque são os eleitores nas autárquicas)?

2. O planeamento e a gestão das cidades deve considerar a relação entre tempo e espaço.

Torsten Hagerstrand terá sido o primeiro a falar da geografia do tempo, realizando importantes desenvolvimentos teóricos que alertaram para a importância do uso do tempo na forma como nos relacionamos com o espaço.

Valorizando a compreensão das relações entre o tempo e o espaço, mas alertando para a necessidade de intervir sobre elas, François Ascher, em “La République contre la ville: essai sur l’avenir de la France urbaine” (Éditions de l’aube, 1998), desenvolverá o conceito de cronourbanismo.

Com cronourbanismo (ou o que se lhe queira chamar), Ascher sublinhava a necessidade de na cidade atual se considerarem os conflitos que ocorrem entre várias modos de apropriação de um mesmo espaço (por exemplo, entre quem quer dormir e quem quer divertir-se), assim como outros (Mattias Karrholm, por exemplo) alertam para o modo como o desenho de praças e jardins condiciona o seu uso a certas horas e se orienta para certos tipos de utilizações, ou como ao longo do dia vários espaços são utilizados de formas diferentes e à mesma hora vários espaços conflituam entre si.

Eu, em 2004, desenvolvi o tema a propósito do Porto e do comércio, entre shoppings e “centro tradicional”, “áreas de turistas” e compras pela Internet (em “Reestruturation urbaine et temps de ville”). Pois, passemos ao Porto…

3. Planear e gerir o tempo nos espaços do Porto.

Como é possível que uma cidade com tantos turistas e tantos estudantes (de todas as partes do mundo e de Portugal também) não pense o uso dos seus espaços a todas as horas do dia?

Não é possível, é a resposta, pelo que se saúda a iniciativa de os comerciantes estarem abertos até às 24h, assim como outras que virão (necessariamente), sejam feiras de domingo,  “noites brancas”, ou tantas outras ações conhecidas noutros lados ou não, inevitáveis digo eu, no quadro de uma crescente desregulação, democratização e valorização da diversidade das relações das pessoas com o tempo no espaço urbano.

Por isso, como se pode continuar a fazer urbanismo tendo por base documentos que regulamentam pouco mais do que o que se pode e não pode construir e onde? Logo agora, que não se constrói nada em sítio nenhum (a não ser onde era suposto ser proibido, como no Parque da Cidade)!

E como se pode continuar a pensar a gestão dos espaços de uso coletivo da mesma forma que se fazia quando a cidade era usada quase só por quem nela dormia ou trabalhava?

Mais ainda quando hoje os espaços de uso coletivo não são apenas os espaços públicos, mas também espaços privados (esplanadas, bares, centros comerciais, docas da APDL, …). Mais ainda também porque as pessoas – e sobretudo os visitantes/habitantes, sejam eles turistas, estudantes, negociantes, professores, investigadores, … – não têm horários das 9h às 18h ou das 8h às 17h, ou o que seja, de um tempo de vidas que eram todas estandardizadas, numa cidade que era excessivamente marcada pelas horas de ponta, as horas de trabalho e as horas mortas?

E… claro… como se pode pensar a gestão da cidade do Porto, esquecendo Gaia e vice-versa? Ou Matosinhos? E Gondomar e Valongo? E vice-versa? Porque se todos reconhecemos que a cidade tem tempos, entre o dia e noite, mas também entre o fim de semana e o “resto”, o verão e o inverno, sabemos bem demais que a cidade onde passamos os nossos dias, não acaba nem começa na Circunvalação ou no Douro.

José Rio Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. José Nogueira says:

    Plenamente de acordo! É agora preciso passar das palavras aos actos. Pode ser que, se ganhar o candidato socialista, obtenha um lugar de responsabiliade e poder para levar as ideias expostas acima que, ninguém com um pingo de bom senso, poderá recusar.

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