3 Nov 2011, 15:12

Texto de

Opinião

A noite do Porto e a falta que faz uma visão para a cidade

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O aumento da complexidade da cidade causa dificuldades, como é evidente no caso do Porto, sem uma visão estratégica que se reconheça, impreparado para encarar os seus lugares de vários usos, ao longo do dia e/ou da semana. Daí o "problema da noite" na área dita das "Galerias"

Na transição do século XIX para o século XX ainda se lutava pelo horário fixo no comércio. Os comerciantes mantinham-se nos seus estabelecimentos até a saída dos últimos clientes, abriam nas tardes de sábado e alguns até ao domingo.

A definição de um horário fixo semanal e diário foi o resultado de intensas campanhas dos caixeiros (empregados do comércio) e ocorreu no quadro de uma tendência geral para a regulamentação e homogeneização, na procura de igualdade e eficiência, a qual promoverá também a separação clara entre o vendedor e o comprador (através do balcão) e entre o espaço público e o espaço privado (com uma porta que era preciso abrir para se entrar no estabelecimento e a montra onde se expõe os produtos, no lugar de se estenderem na rua, ou se pendurarem na fachada da loja).

No planeamento urbanístico defende-se também, ao longo de boa parte do século passado, a regularidade e eficiência, designadamente pela separação das “funções da cidade”, limitando-se severamente a residência no centro da cidade, bem como a abertura de estabelecimentos comerciais em áreas residenciais e industriais (veja-se a este respeito o regulamento – não aprovado – do Plano de 1962 para o Porto, coordenado por Robert Auzelle).

Desde os anos 70 e 80 que este quadro se altera drasticamente, com mini, super e hipermercados e outras formas de auto-serviço, o acesso generalizado da mulher ao trabalho, a banalização do automóvel e a dessincronização de horários (até para evitar congestão nas horas de abertura e fecho), enquanto o planeamento evolui de forma a que hoje se promova a mistura, a complexidade e as formas mais diversas de hibridismo, incluindo o aumento dos residentes nas áreas com mais comércio e serviços, a abertura de esplanadas (de gestão privada) em espaço público, reuniões e debates públicos no interior de estabelecimentos de atividades económicas, assim como horários os mais diversos para pessoas muito diversificadas (incluindo na sua origem geográfica e inscrição étnica), também na forma como se relacionam com a cidade.

Este aumento da complexidade causa dificuldades, como é especialmente evidente no caso da cidade do Porto, sem uma visão estratégica que se reconheça, pouco planeada e pensada na sua gestão, por isso impreparada para encarar os seus lugares de vários usos, ao longo do dia e/ou da semana.

Daí o “problema da noite” na área dita das “Galerias”, que engloba o espaço urbanizado por Elísio de Melo há cerca de 100 anos no lugar da propriedade das Carmelitas e inclui a Rua das Galerias de Paris, mas que se estende pelo menos da Rua Dr. Barbosa de Castro à Travessa de Cedofeita e Largo de Mompilher.

A intervenção da Porto 2001 no alargamento do espaço dos peões, o reforço das tradições académicas associadas ao Piolho (Café Ancora d’Ouro) e aos Leões (Praça Gomes Teixeira), o investimento pioneiro em bares e formatos comerciais inovadores por parte de alguns empresários, o recurso obrigatório ao exterior dos estabelecimentos para os fumadores e o aumento dos visitantes na cidade (estudantes de fora do Porto, incluindo Erasmus, mais os turistas em número crescente), combinam-se para explicar a crescente animação da noite da Baixa, a qual se foi intensificando e alargando, no espaço, como na duração.

Com este “sucesso da noite do Porto”, o conflito entre utilizador da rua e o residente dos andares superiores nos lados da rua, que há cerca de 2 décadas ocorria na Ribeira e depois se resolveu (parcialmente) nas discotecas, voltou à cidade, agora na sua parte alta, dita “Baixa”, gerando um visível embaraço à Câmara Municipal do Porto, impreparada para aquilo que François Ascher chamou de “cronourbanismo”, ou seja, do planear e gerir o uso do tempo na cidade por parte de pessoas distintas nos mesmo lugares (umas divertindo-se, outras procurando dormir) e em lugares distintos com especializações sincrónicas, ou seja com usos diversos à mesma hora, e diacrónicas, ou seja especializações diversas ao longo do dia (ou da semana).

Esta abordagem, da cronotopia e do cronourbanismo, é associável ao reconhecimento da importância acrescida de fazer mais gestão urbana (na segurança, na limpeza, no ruído), por contraponto com grandes investimentos de fachada, seja no chão para os carros e as pessoas, seja nas paredes dos prédios (nalguns casos transfigurados no seu interior e ainda assim tão vazios como os que se degradam de dia para dia, de ano para ano, sem reabilitação à vista).

Fazer e apoiar mais reabilitação e mais barata, gerir muito mais e o melhor possível (na articulação entre temas e interesses) deveriam ser objetivos centrais de política urbana, na reinvenção do urbanismo que tanta falta faz ao Porto, libertando-o da dimensão quase exclusivamente jurídica que tem tido na última década, com muitos regulamentos, longos e complicados quase sempre, vários processos e conflitos jurídicos, nalguns casos muito prejudiciais (como no caso do Parque da Cidade), além de muito discurso (que também é preciso!) e investimento quase sempre em soluções demasiado caras e de prioridade duvidosa (como na Avenida dos Aliados ou na Praça de Almeida Garrett).

José Rio Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

    • Julio gomes says:

      Só a rir… Estes senhores que andaram a encher a pança à custa do Porto 2001 deviam ter vegonha e não vir para a praça píblica com análises que fazem os mortos chorar a rir! lololol

  1. Jaime Castro says:

    Que palhaçada de artigo!!! A Baixa está viva como nunca esteve e só faltava este velho do Restelo para vir criticar a CMP. Deve querer ser vereador do urbanismo com o grande Manuel Pizarro…

  2. Joana Lima says:

    Olá Jaime,

    Só alguém que apenas visite a baixa à noite pode considerar este artigo uma palhaçada.

    Quem vive e trabalha na baixa está também de acordo que a baixa está viva como há muito tempo não estava, mas a vida nocturna não é a única vida que queremos para a baixa e é nisso que se deve pensar.

    Quem vem apenas sair à noite não vê as ruas no dia seguinte de manhã, por exemplo.

    Era bom começarmos a pensar mais globalmente e em várias vertentes como diz o autor do artigo e não apenas numa direção.

Opinião

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