14 Out 2012, 20:52

Texto de

Opinião

A mudança é o mundo que toca

Sem darem ouvidos a D. José Policarpo, que considerou que vir para a rua não adianta nada (e rezar, adianta?), milhares de pessoas vieram para a rua.

Manifestação de 13 de Outubro

Foto: Miguel Oliveira

Há poucos dias escrevi uma crónica aqui no Porto24 em que dizia, a propósito da grande manifestação “Que se lixe a troika, queremos as nossas vidas!”, que o povo voltou à rua. E dizia que gostei: gostei da rua assim, da rua a dizer o que pensa, a acreditar de novo que a política é onde o povo quiser que ela aconteça. Chamava a essa crónica “A mudança é o mundo que dança”. Tinha razão: ontem, em palcos de 20 cidades portuguesas, o slogan bem podia ter sido “A mudança é o mundo que toca”.

Sem darem ouvidos ao arcebispo D. José Policarpo, que considerou que vir para a rua não adianta nada (e rezar, adianta?), milhares de pessoas vieram para a rua ouvir tocar e dizer poesia. Por mim, estive no Porto, na Praça D. João I, e, antes de mais nada, diverti-me: boa música, com Jacinta, Manel Cruz acompanhado duma série de gente, Academia Contemporânea do Espetáculo, Clã, e muitos outros; humor pelos Palmilha Dentada e pelo veterano – no bom sentido desportivo do termo – Óscar Branco; Alexandre O’Neil, Mário Henrique Leiria, Jorge Sousa Braga, Gonçalo M. Tavares e João Habitualmente ecoados ao vento pelo coletivo Silêncio da Gaveta e por Isaque Ferreira. Poesia pelas praças? Ao tempo que não se via!

Há coisas boas na crise: agora que cortaram praticamente todo o dinheiro para a cultura, os artistas saem à rua, juntam-se à indignação e democratizam a criação artística oferecendo-a a quem precisa – porque a arte, numa sociedade com alma, é pão também. Assim, sim! Porque a rua numa cidade não é só dos carros e das rotinas cinzentas que nos vão repetindo pelos dias. Que bom é o Porto com um palco ali mesmo defronte do Rivoli, onde Rui Rio queria ainda não há muito que La Féria fizesse a festa sozinho. Afinal, La Féria foi de férias, Rio vai para o ano, e o povo volta a vibrar no espaço da rua, que não tem dono e é de todos. E que bom foi ver Manuela Azevedo a cantar Zé Mário Branco! Os artistas pop-rock a pedirem ajuda ao homem que, há umas décadas, escreveu o FMI e cantou que “a canção é uma arma de montaria”. Só que agora já não é contra a burguesia – é contra a insensibilidade de quem nos (des)governa, contra a incompetência, contra a subserviência aos donos do mundo financeiro que nos estão a ver exaurir com indiferença.

Tem destas coisas, a crise: chamar de novo a arte ao sentido do comprometimento. Porque, parece-me, tem andado muito entretida com ela própria. Mas ontem vi gente em cima do palco a chamar aos bois pelo nome e a pegar o touro pelos cornos que nos tem andado a espetar. Os artistas têm uma grande capacidade de intervenção social e política, são chamados a um papel de primeiro plano sempre que as sociedades vivem momentos difíceis, sempre que são injustiçadas, sempre que o poder se torna incapaz de ouvir. É por isso que os poderes em geral, e os menos inteligentes em particular, não gostam de gastar dinheiro com a arte, como não gostam de gastar em nada que seja agente de mudança, quando esta não rima com inovação e tecnologia. A grande mudança é nas cabeças, e dessa os poderes instituídos têm medo. E o que o medo quer é que tenhamos medo, como recordava ontem a voz de João Rios atirando aos ares as palavras de O’Neil.

Os artistas, ontem, expressavam-se, faziam política nos intróitos das peças que interpretavam. Manuela Azevedo encarregou-se de nos dizer que nós é que chamámos a Dona Troika. Sabíamos que não iria ser fácil. Mas o resto da estupidez corre por conta dos que ganharam mandato nas urnas para governar. Quantos portugueses votariam hoje ainda neles? Representam quem? Pensam que o nosso único comportamento político é o voto e que a partir daí estão mandatados para o que quiserem? Em Lisboa, até a 5.ª de Beethoven desceu à Praça de Espanha! Bela metáfora, a de pôr o compositor surdo a dar música aos que não nos querem ouvir!

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

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