4 Out 2012, 21:20

Texto de

Opinião

A mudança é o mundo que dança

Gostei da rua assim, da rua a dizer o que pensa, a acreditar de novo que a política é onde o povo quiser que ela aconteça.

Uma das coisas mais constantes que existem é a mudança. O mundo é assim, cheio de paradoxos: é sempre redondo (embora achatado nos polos), mas todos os dias toma formas diferentes. “Isto tem de mudar!”, ouve-se constantemente. Nunca estamos satisfeitos com a vida que temos, sento-me no café e ouço “Isto tem de mudar!”. Quem o diz é o senhor do costume, todos os dias às voltas com o binómio meia de leite/sandes de queijo, logo de manhã, entro e ouço-o pontualmente, diariamente, a dizer que isto tem de mudar. Por que toma sempre meia de leite e sandes de queijo? Por que não vai ao café do lado?

É escusado ter medo da paralisia do mundo: se há coisa que ele não faz é estar quieto. Fiquemos nós quietos e ele mudará sem nós. É por isso que podemos sentar-nos tranquilamente e ficar muito moles e abúlicos e sem vontade de mexer uma palha que ele mudará na mesma – na mesma não, melhor, porque não estamos lá para estorvar. Porque há gente com um jeito especial para estorvar a mudança. Podia já lembrar-me duma série de políticos, mas não queria estragar isto.

A mudança é uma coisa que, como as coisas que estão sempre a acontecer, não deixa que demos por si se tentarmos vê-las a cada momento – como acontece quando, em crianças, queríamos ver os ponteiros do relógio a andar ou a lua a mover-se. A mudança, nos períodos em que não acontece de supetão, que é quase sempre, é subtil e minimal. Às vezes basta deslocar algo do seu sítio, dum sítio pequenino que parece nada acrescentar a lugar nenhum, e zás!!, a mudança acontece. Reparemos por exemplo no efeito drástico de mudar um único sinal de pontuação:

– Ganhei-o e agora vou gastá-lo?

– Ganhei-o e agora vou gastá-lo!

A simples troca do ? pelo ! colocou-nos  perante a passagem da sociedade de economia de subsistência para a sociedade de consumo. Pode parecer uma questão menor, mas estamos agora ameaçados, com a crise e a austeridade, a ter de fazer o caminho inverso e passar da exclamação à interrogação.

Já a mudança duma única letra pode transformar um banquete numa refeição tristonha:

– Que comida requintada!

– Que comida requentada!

Novamente pode parecer uma questão menor – mas já perceberam que podemos estar a caminho de voltar a trocar o i pelo e

Mas eu gosto mesmo é das mudanças que acontecem de supetão. Foi o que me aconteceu quando saí do ventre de minha mãe e desatei a viver cá fora; foi o que aconteceu no primeiro dia de escola e a professora, do alto do seu bigode, descobriu que eu era míope; foi o que aconteceu numa quinta-feira dia 25, era Abril e o professor de geografia, de cognome Farwest, se virou para nós e disse podem ir embora vão direitinhos para casa que é perigoso porque houve uma revolução. Fui jogar à bola – começou aí a minha tendência a fazer o contrário daquilo que nos dizem os que nos mandam ir pelo carreiro.

Vou dar 2 exemplos de mudanças que aí vêm, quer eles queiram quer não – porque, já disse, o mundo muda e muda mesmo:

 – parecia que não conseguíamos mudar de presidente da câmara no Porto, mas agora vamos mesmo mudar. Demorou, mas o tempo tem sempre razão e o Porto, que é muito maior do que qualquer presidente da câmara, depressa há de recuperar.

– parece que não conseguimos mudar de governo, mas é só uma questão de tempo. A grande dúvida é a de saber se ainda terão tempo para dar, realmente, cabo do que resta.

– parece que o povo voltou à rua. “Isto tem de mudar!”, gritou-se na grande manif de rua “Que se lixe a troika, queremos as nossas vidas!”. Gostei. Gostei da rua assim, da rua a dizer o que pensa, a acreditar de novo que a política é onde o povo quiser que ela aconteça. Podem as moções de censura ao atual governo não dar mais do que uma acalorada discussão parlamentar – mas os argumentos com que são derrotadas não são políticos, são corporativos, defendem uma coligação partidária que se agarra com unhas e dentes às cadeiras do poder, defendem quem tem interesse em continuar a engordar com o que nos retiram dos salários e das pensões.

– parece que este ano ainda podemos comemorar com um feriado o 5 de Outubro – uma dessas mudanças de supetão que acabaram com reis e rainhas, marqueses e condes. Significativo que este governo tenha escolhido tal data como um dos feriados a abolir em nome da produtividade. Era só um sinal, para quem tivesse dúvidas, do modo como eles tratam a República.

Enfim, afinal o que é a mudança? A mudança consiste em tudo continuar mas sem ser o que era. Ela acaba quando não se continua – a morte não é mudança, mas permanência definitiva. A mudança mexe – a mudança é o mundo que dança.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

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