25 Mar 2013, 10:26

Texto de

Opinião

A minha paixão pelos bancos

Continuo a gostar dos Bancos porque sem eles não somos nada. E é por isso que ainda no outro dia fui a casa da minha avó e sentei-me no Banco da cozinha dela.

Há pessoas que não gostam dos Bancos. E o não gostar de Bancos é algo tão trivial como não gostar de gatos nem de cães mas com uma diferença. É que ao contrário dos gatos e dos cães, o não gostar dos Bancos traduz-se muitas vezes numa mordidela feroz nas nossas mãos quando lhes tentamos acariciar suavemente o pêlo macio. Apesar de tudo, continuo a gostar dos Bancos. Eles ensinaram-me a apreciar os pequenos prazeres da vida, o conforto e a comodidade da existência.

Por que gosto dos Bancos? Talvez por um dia ter conhecido um senhor que fazia uns Bancos lidíssimos nas ruas de um Portugal profundo, todos redondos e consistentes, em madeira robusta. Vendia-os a preços muito acessíveis às pessoas que ficavam encantadas com as suas esbeltas obras de arte. Mas o que gosto mesmo muito é do Banco que a minha avó tem lá em casa e que, além de ser forrado em courinho castanho na parte do assento, era o Banco onde me sentava para tomar o pequeno-almoço logo de manhã quando era miúdo antes de ir para a Escola, daí que tenha construído uma relação profunda com aquele Banco.

Mas voltando ao senhor que conheci e que fazia Bancos esbeltos para vender aos deslumbrados, nunca compreendi como é que ele morreu na penúria com a sua curta reforma. Desde pequeno que sempre ouvi dizer que os Bancos fazem muito dinheiro, que os Bancos são mesmo máquinas de fazer dinheiro, e eu não compreendo como é que o Sr. Narciso viveu toda a vida daquela forma desgraçada. Talvez ele não tivesse compreendido, no seu ar de simplicidade perante a vida, a complexidade dos Bancos que fazia. Só assim se pode explicar porque é que ele morreu daquela forma, quase sem dinheiro para ir ao médico, lá ao longe, na Cidade. O que não deixa de ser uma explicação estranha porque conhecia em pormenor todos os Bancos que fazia e manuseava-os de uma forma muito apoderada e superior.

Os Bancos fazem, portanto, parte da nossa vida. Sem eles não éramos nada, não conseguíamos andar porque nunca nos sentaríamos. E sem os outros Bancos também não éramos nada: sem eles nunca teríamos oportunidade para comprar uma casa porque a maior parte de nós não tem dinheiro para comprá-la sem pedir dinheiro emprestado aos Bancos, porque muitos de nós não tem dinheiro para comprar um automóvel sem pedir dinheiro emprestado aos Bancos, porque muitos de nós não tem dinheiro para cobrir os empréstimos que muitas vezes se têm que contrair para pagar outros empréstimos que fizemos no passado aos Bancos. É sobre estes que pretendo dissertar um pouco, não pela via da crítica tradicional ao sistema bancário – de que estes têm lucros aviltados num país em crise, de que eles desmarcam capital noutros lados para não pagar impostos, etc. – mas pretendo antes falar um pouco da minha experiência quotidiana com os Bancos, que tanto gosto.

A minha paixão por estes Bancos traduz-se essencialmente em 5 palavras muito simples: Papéis, Telefonemas, Emails, Cartas, Balcões. Vou começar a desenvolver cada uma delas, desnovelando-as, colocando-as de ventre aberto para a análise cirúrgica das entranhas desta minha paixão profunda.

Papéis. É algo que impera na nossa vida social. O gato fedorento até já ironizou com a rábula do “papel? Mas qual papel? O papel”. E o papel, entre outras coisas, serve para controlar. Na nossa relação com os departamentos públicos e privados das Instituições, aprendemos a utilizar o papel para justificarmos os nossos atos, servindo para nos defendermos dos burocratas. Defendemo-nos com burocracia da burocracia das Instituições. O papel torna-se assim num instrumento importantíssimo de regulação da nossa vida com os Bancos. A relação que tenho com a Banca traduz-se num conjunto de papéis que tenho com ela. E ela faz-me perceber todos os meses que tenho uma relação matrimonial com a Banca. Quando me zango, rapidamente ela me manda uma carta (que tem um papel lá dentro) e me convence de que sou eu que estou errado, diz-me que eu afinal não tinha lido o regulamento tal e tal, assinado aqui e ali, promete-me mundos e fundos e fica tudo resolvido até ao próximo dia em que me volta a apunhalar pelas costas. Estamos, portanto, nos mesmos moldes da vitimação numa relação amorosa, com os seus ciclos de lua-de-mel e de agressão. Qualquer dia encho-me de coragem e transformo o nosso casamento em divórcio e resolvo o assunto. Mas hesito. Porque, se tal acontecesse, era ela que ficava com a maior parte dos valores quando existisse a partilha de bens e talvez isso me iniba o passo seguinte à raiva. Talvez esteja perante o fenómeno de identificação com o agressor típico da violência doméstica e isso me estanque a mudança. No entanto, esta certeza já me poupa dinheiro em advogados, o que já não é assim tão mau.

Telefonemas. Não é um telefonema qualquer. É um telefonema que está na base da Discriminação que a Banca faz aos seus clientes. É que um telefonema para os Bancos traz consigo uma música que não agrada a todos. Qual a função dessa música enquanto esperamos que nos atendam o telefone? E porquê Chopin ou Mozart e não os Ranchos Folclóricos de Famalicão? Talvez os Bancos tenham que repensar a música de espera dos seus telefonemas e sejam mais ecléticos nas suas opções musicais. Porque no outro dia falei com um metaleiro que tinha ligado para o serviço telefónico de um Banco e ele estava indignado por não ter ouvido Sepultura ou Iron Maden enquanto esperava que lhe atendessem o telefone. Acabou por desligar. Afinal, talvez seja estratégica esta falta de democracia musical…

Algo que me incomoda (mas não me chateia porque gosto muito dos Bancos) é também a distância emocional destes telefonemas. Quando falo com uma menina do outro lado apetece-me perguntar quem ela é. Apenas lhe sei o nome: Joana tal tal, Maria tal e qual, mas quem são elas? Não sei se estou maluco mas apetece-me perguntar-lhe, por vezes, o que vai fazer hoje para o jantar, se está bem-disposta, se já pensou no perigo do aquecimento global para o Planeta, o que acha da petição que anda a circular para não matarem um elefante em África ou então qual o seu filme favorito. Uma voz tão simpática ao início dá-me vontade de encetar uma conversa informal, talvez porque a sua formalidade me é convidativa, mas rapidamente percebo que aquela boa disposição é defensiva, instrumental, fria, que me visa controlar os impulsos de raiva que me faz pegar no telefone quando recebo uma carta a dizer que me vão tirar mais dinheiro da conta e sou forçado pelo imperativo do impulso a ligar para a linha de apoio. Aquela raiva inicial tende a esfumar-se no som cândido daquela voz suave e prestável, é um cântico de sereia que me soa tranquilo ao ouvido direito enquanto seguro o auscultador. Só me sinto novamente nervoso quando já tenho o telefone desligado, o que me deixa ainda mais nervoso do que ao início.

Emails. A relação com os Bancos é, portanto, longínqua. A internet mais do que aproximar as Pessoas permitiu este afastamento dos Homens em relação às Instituições, não do ponto de vista da democracia do acesso a elas mas antes na natureza dessa ligação/relação. Apesar de muitos deles estarem sediados na nossa Cidade, a tendência para os Bancos nos aconselharem a mandar um email quando repostamos algo menos correto da parte deles é uma constante. A burocracia assume, assim, um papel importante na manutenção do Poder dos Bancos sobre os indivíduos: torna essa relação distante mesmo podendo estar muito perto de nós fisicamente. Quando temos um problema com os Bancos, dizem-nos para telefonar para a linha de apoio ou para mandar email, nunca para passarmos pelo seu balcão de atendimento. Porque será? O email é algo tão volátil e sem consistência que me assusta. E muitas vezes o endereço para o qual vai esse email é em tudo menos personalizado – a maior parte das vezes é o Departamento de Clientes ou Departamento de outra-coisa-qualquer e, quanto a isto, não tenho forma de assegurar se sempre receberam ou não o meu email. O mais certo é ter ficado perdido na caixa de entrada com a eventualidade dos anexos ficarem estilhaçados no percurso da rede web. Mesmo que mandem aquelas mensagens de volta a dizer que acusaram a receção do mesmo, aquilo ali é uma resposta automática do email e não me garante o seu tratamento efectivo por quem de direito. É por isso que evito o email. Nunca acreditei em relações mantidas à distância.

Cartas. A carta veio consagrar-se como o modo mais romântico de duas pessoas demonstrarem o seu amor e a sua paixão. Sempre foi uma forma de admitirmos o amor quando a vergonha nos ruborizava a face. E se fosse analisada assim, estava em condições de dizer que a Banca nutre um grande amor pelos seus clientes. Mas até nisso é uma relação desigual: quantas cartas recebemos dos Bancos e quantas escrevemos nós para eles? Neste capítulo, os Bancos mandam-nos cartas todos os meses, querem manter uma relação connosco. Nós apenas os consultamos por carta quando temos algum problema e esta é apenas uma das razões por que gosto tanto deles, porque só lhes escrevemos quando alguma coisa corre mal.

Balcão. Esgotadas as possibilidades anteriores de aceder a um atendimento resoluto por parte do Banco, e vendo o problema persistir, opto por ir diretamente ao seu Balcão de atendimento. E fico perplexo por ele ter, a maior parte das vezes, apenas uma pessoa a atender. Sem compreender aquilo e por gostar tanto dos Bancos como eu gosto, e das meninas que atendem o telefone também, sou forçado a não acreditar que fazem isso para nos verem pelas costas. Talvez tenham muito que trabalhar nos bastidores do atendimento ao público de modo a que o atendimento seja o mais personalizado possível. Mas acontece que tal figura singular e isolada no meio de tanta queixa do consumidor se traduz numa gigantesca fila até à porta da entrada. E quando chega a minha vez sou atendido à pressa, e o(a) funcionário(a), que olhando para a enorme fila que se forma à sua frente até à porta, começa a falar apressadamente, a tentar despachar, fazendo-me perceber que afinal, para este tratamento tão hostil, mais valia ter ligado para a linha de atendimento a clientes do Banco porque sempre era da forma que me deliciava a ouvir o som tranquilo, não de Choupin ou Mozart, mas das sereias que nos anestesiam a revolta e a ira ainda que apenas por uns momentos.

Apesar de tudo, continuo a gostar dos Bancos. Continuo porque sem eles não somos nada. E é por isso que ainda no outro dia fui a casa da minha avó e sentei-me no Banco da cozinha dela. Fiquei deliciado com aquilo, com o conforto daquele courinho castanho forrado no assento. E pensei logo no Sr. Narciso dos Bancos e na vontade que tinha de o abraçar por ele me ter feito gostar tanto dos Bancos que fazia nas ruas daquele Portugal profundo.

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