16 Ago 2011, 17:49

Texto de

Opinião

a máquina que nos faz

Hoje venho falar de um livro recente mas, por diversas razões, muito importante e já imprescindível: "a máquina de fazer espanhóis", de valter hugo mãe.

A Máquina de Fazer Espanhóis

Imagem: DR

Ler sempre foi um prazer desde a infância e ter livros nas mãos é a minha recordação mais antiga. Ainda sem os perceber, recordo-me de os tentar guardar pelo cheiro, encostá-los ao nariz e inspirá-los numa tentativa de os carregar corpo dentro. Foi na companhia de livros que conheci os primeiros poemas, de Fernando Pessoa, e durante anos a fio li sofregamente tudo o que me vinha parar às mãos.

As minhas primeiras viagens foram na companhia dos Atlas da Escola dos Sininhos e foi com livros também que aprendi os nomes dos quadros que, anos mais tarde, pude contemplar em Paris, Londres e Madrid. Foi na Biblioteca Municipal, com livros ilustrados com caracteres neo-rupestres, que aprendi a nadar e, inacreditavelmente, a saltar de forma decente e correcta o plinto, essa entidade indomável das malditas aulas de Educação Física.

Hoje venho falar de um livro recente mas, por diversas razões, muito importante e já imprescindível. “a máquina de fazer espanhóis” é de valter hugo mãe mas começou a ser escrito no dia 15 de Janeiro de 1928 pelo próprio punho do inestimável Álvaro de Campos, naquele que é para mim, o seu melhor e mais completo poema, a “Tabacaria”.

O livro conta a história de António Silva, senhor octogenário, que após a morte da esposa, pilar fundamental da sua existência, é forçado a encarar a vida vazia sem ela, que é como que dizer sem amor, e é realojado de forma compulsiva pela família, no demiúrgico Lar Feliz Idade.

Não irei contar a história, deixarei a cada leitor o prazer de descobrir o que se sucederá, mas não consigo deixar de acrescentar como “a máquina” é um compêndio infinito de afectos. Quanto prazer existe em ter nas mãos um livro que nos enternece, até que os olhos, emocionados, fiquem embaciados? Quantos deles serão capazes de nos fazer rir abertamente? E quantos deles é que o fazem simultaneamente?

“a máquina” é, acima de tudo, um tratado sobre a amizade. Leio devagar, atrasando as frases, relendo-as uma, duas vezes, prolongando ao máximo que me é possível cada página, nessa vã tentativa de demorar as palavras, inventando-as mais lentas uma outra vez.

Sinto o Senhor Silva ao meu lado, rio até às lágrimas com ele, entristeço e choro lágrimas por ele, como se ele próprio fosse meu amigo e com ele envelhecesse também, nessa proeza infinita de se gostar e chorar quem não se conhece e apenas se imagina. Aprendo com ele a sermos nós próprios o outro porque é assim que tem de ser e que os amigos são muito mais que a redundância de se dizer que são a família que escolhemos. Não, não são, são bastante mais que isso. Os amigos são na verdade nós próprios reflectidos infinitamente nos seus rostos. Sem eles, sem nós neles, a vida seria apenas um lento desenrolar de dias vazios.

O sol passa por mim em direcção à Foz e encontra-me encostada a uma árvore do Jardim das Virtudes e apesar de estar só, sorrio e digo em voz alta “Até já, Senhor Silva” e as páginas já não são brancas e silenciosas, são uma revolta de Silvas, de enfermeiros, de tubos, de metafísica ensaiada em lares de terceira idade.

Descubro só agora, tantos livros depois, que a mais terna e simples felicidade pode estar na forma de um livro pousado no colo. Como um amor que nasce bem dentro das letras e se prolonga fora de nós. Este livro de que falo é um que começa por ser uma ténue dor no coração, mas depois se transforma em algo maior e se entranha bem dentro, como coisa importante que é.

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