15 Jul 2012, 17:53

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Opinião

A lista dos medos

Quando vi o homem sem medo, a aranha do Porto, já as pessoas comentavam "olha, lá vem ele a descer". Reabriram o tabuleiro inferior da ponte. Vi-o descer com cuidado os degraus desiguais. Afinal o homem tinha medo. Ainda bem.

Há pouco tempo, peguei numa folha de papel e ali mesmo, a sangue quente, fiz a lista dos meus medos. Não sei porquê. E se a influência veio do facto de ter visto, há pouco tempo, o filme de Peter Greenaway, “The Pillow Book”, ela chegou de mansinho, sem denunciar a sua presença.

No filme, a personagem interpretada por Vivian Wu elabora listas – todas elas com um caráter negativo – baseando-se num livro muito antigo, escrito por uma outra mulher igualmente obcecada por listas – todas elas com um caráter positivo.

Há dias – 3 ou 4 depois de ter feito a minha lista – pensei ter visto um homem sem medo. Brincava com o susto na teia de arame em filigrana da Ponte Luís I, no Porto. A princípio, vi apenas o alvoroço, gente atraída pela adrenalina, transpirando solidariedades para com aquele homem-aranha. Pelo menos, enquanto o espetáculo durasse. E durou.

Enquanto saboreava um ruby em estado líquido, do lado de Gaia (para quê gastar mais carateres, a Vila já não é Nova), pintando com os olhos o que há para pintar no rosto infantil da Ribeira, a polícia e os bombeiros encerravam o tabuleiro inferior da ponte.

Preso por fora, com 3 amigos forasteiros impressionadíssimos com o aparato (um deles teve o arrojo de achar que o Douro é um rio sexy), entretive-me a jogar ao “Onde está Wally” no emaranhado difícil da ponte, tentando encontrar o nosso homem-aranha. O homem sem medo. Ao meu lado ouvia “olha, lá vai ele a subir”, o que confirmava as minhas suspeitas. Sem medo.

Desconhecia (desconheço) as intenções do one show man: podia ser um infeliz buscando na profundidade azul escura uma corrente que lhe mostrasse um caminho; podia tratar-se de um aventureiro com vontade de ver as coisas lá de cima, insatisfeito com a hipótese de se meter no elevador de um prédio alto e subir até ao último andar; podia mesmo ser um golpe de marketing relativo a um filme recente, de um super-herói já referido.

Um barco no rio vigiava-lhe as intenções, quaisquer que elas fossem. Adicionava um pião de luz vermelha à cena hollywoodesca. Chegou o camião dos bombeiros, de escada erguida. Desceram diplomatas dos céus, por cordas flexíveis (a flexibilidade é uma caraterística que une cordas e diplomatas).

Quando vi o homem sem medo, a aranha do Porto, já as pessoas comentavam “olha, lá vem ele a descer”. Reabriram o tabuleiro inferior da ponte. Vi-o descer com cuidado os degraus desiguais. Afinal o homem tinha medo. Ainda bem. Um arrepio lembrou-me que a ausência de medo pode equivaler à ausência de vontade.

Enquanto se dizia “olha, vai-se deixar apanhar”, olhei e vi-o sentar-se num recanto confortável para a vista. Ao passar por ele, vi-o estender os olhos na escuridão do rio (olhava para o lado nascente). Tanto quanto eu sei, ficou por ali. Não sei se ainda lá está.

Acrescentei um medo à minha lista: o de perder o medo.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

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