29 Jan 2012, 18:38

Texto de

Opinião

A higiene da atenção

As crianças habituam-se a dividir a atenção por um sem-número de estímulos. Assim, além de não treinarem essa capacidade de focar a atenção, perdem ainda a intencionalidade dos seus gestos.

Numa época em que os défices da atenção estão na ordem do dia e que se listam sintomas e quadros nosográficos, parece-nos pertinente refletir sobre alguns factores sociais que poderão entrar em jogo nesta área. Estamos aqui de acordo com Stiegler quando defende que a atenção é também um constructo social que deve ser objecto de intervenção. Trata-se de regulamentar a paisagem audiovisual – um conceito do filósofo francês – de modo a permitir, entre outros aspetos, um crescimento saudável.

Não discutiremos aqui essa ampla ambição. Listaremos apenas algumas práticas tecnológicas que poderão ter consequências negativas em termos de desenvolvimento das capacidades de concentração dos mais novos. Comecemos pelo zapping, a mudança de canal repetitiva, gesto automático que prende os olhos à coisa nenhuma do caos das imagens. Passemos depois às práticas que se fazem do jantar e ver televisão, ver televisão na cama, entre outras situações.

Eis depois as consolas portáteis, objetos altamente aditivos que sugam a motivação dos mais novos – deixando-os quase inertes em relação a outras tarefas do seu quotidiano. E mais: os pequenos jogam quando vêem os seus desenhos animados preferidos?

Se nos pusermos na perspetiva das crianças, os efeitos são fáceis de aduzir. Vêem os pais a mudar constantemente de canal; não estão habituados a estar em casa de televisão desligada; clicam em links infinitos na internet, ou ainda jogam na consola ao mesmo tempo que dão espreitadelas ao programa que passa num qualquer canal.

Habituam-se a dividir a atenção por um sem-número de estímulos. Assim, além de não treinarem essa capacidade de focar a atenção, perdem ainda a intencionalidade dos seus gestos.

É precisamente isso que lhes é pedido na escola: que se concentrem num problema e o tentem resolver. Duas coisas que não estão habituados a fazer em casa: concentrar-se numa situação e estabelecer estratégias de resolução – a tal intencionalidade.

Afigura-se-nos, deste modo, como uma área educativa prioritária, pensar a relação que devemos desenvolver com os meios tecnológicos. Da mesma forma que incentivamos hábitos de higiene ou alimentação saudáveis, deveríamos também elencar regras e difundi-las de modo a que a tenção possa desenvolver-se harmoniosamente entre os mais novos.

Imaginamos desde já algumas ideias no sentido de uma lista de boa prática: um ecrã ligado de cada vez; planear o tempo que se passa com o ecrã (seja ele televisão ou de outro tipo); não ao zapping; direito a desligar a televisão; navegar na net para se chegar onde?

Rui Tinoco escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Luis Fernandes says:

    Não posso estar mais de acordo. Mas é difícil contrariar a tendência zapista linkista que nos faz saltar de coisa em coisa, porque é visto como modernaço e dá a sensação de domínio sobre o real – aliás, sobre o virtual… Se, há umas décadas, disséssemos que o excesso de proteína ou de açúcar fazia mal o pessoal também se ria.

  2. Nut Muscatt says:

    Imaginemos: o prazer também se aprende.Continuando a metáfora da alimentação, é sabido que experiência de sabores inusitados leva a novos gostos e, o que é mais importante, à vontade da descoberta. Também aqui as alternativas existem e podem e devem ser criadas: melhor que regular os acessos às apetecíveis e variadíssimas TIC, talvez seja tentar mostrar que há mais mundo para além do virtual. Do jogo colectivo à música partilhada, do passeio ao picnic, da história inventada à conversa que diverte. Até chegar ao gosto do silêncio necessário ao livro 😉 Mas alguns dos meus alunos dizem que estes têm letras pequeninas que fazem mal aos olhos… Os monitores, dizem, não fazem mal: pode sempre aumentar-se o tamanho da letra. Complicado…

  3. Sónia Rodrigues says:

    E como será o efeito da prática inversa? Cá em casa a televisão permanece fechada a maior parte do tempo e as miúdas fazem desenhos na mesa da sala ou vão passear o cão pela vizinhança… Dominam menos as consolas e os computadores do que os colegas mas lêem livros e fazem tantas perguntas que acabam por cansar qualquer um. Será que estou a cumprir o meu papel de mãe? Não as estarei a educar de uma forma nostalgicamente inadequada? As minhas filhas como irão concorrer com colegas com polegares hiper treinados e atenções flutuantes? Para já, basta-me que sejam felizes e que me dêem tempo para ir a uma exposiçãozita de vez em quando…

Opinião

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