2 Ago 2011, 9:54

Texto de

Opinião

A hegemonia de uma cidade pequena

O Porto é uma cidade pequena. Tem a alma de muitas aldeias juntas que se querem habitadas e habituadas a quem nelas passeie.

Porto

Foto: celblau/Flickr

Não sou jornalista, escritora, poetisa, nem nunca pretensões para tal tive porque se junto palavras umas a seguir às outras é por puro e continuado prazer de o fazer e sem quaisquer motivações para além de escrever sobre o que gosto.

Gosto do Porto. Foi, contudo, um processo duro, bastante longo de alcançar. Gosto de sentir as gaivotas perto de mim e o mar ainda longe, que nem sequer o ouço. Gosto das árvores centenárias da Cordoaria, do sol nas fachadas de Miragaia, do sorriso difícil da moradora da Travessa da Baleia e do sereno descanso das sereias de pedra no seu palácio, no Monte dos Judeus.

Numa época de contenção salarial e de adição progressiva aos computadores, numa dependência convulsa aos jogos e redes sociais, lembro-me da loucura dos anos 20, da alegria de viver dos anos 50, ambas alturas de pós-guerra, épocas de verdadeira reconstrução mental, económica e social das pessoas e das sociedades. Vivemos numa letargia acomodada, do trabalho a casa, casa-televisão-sofá-computador. A comunicação é cada vez mais virtual e a ausência de dinheiro não justifica a inércia acomodada nem esta falsa partilha, a falta de vontade e de valores é que sim.

Não proponho aqui uma revolução social, mas sim um desapego ao pessimismo que nos querem impor desde o segundo em que se lêem as notícias, até ao momento em que se ouvem os comentários no metro de que “dantes é que se estava bem”.

Dantes não se estava bem. Agora a liberdade está ao alcance de qualquer um, mas a mais difícil de atingir, aquela que muitos lutam uma vida inteira mas não a alcançam, a liberdade da procura da felicidade, a de acordar de manhã e sorrir pela vida que se tem.

Daqui ao Porto é um saltinho. Foi uma relação difícil, a minha com a cidade, primeiro pelo fumo dos carros nas ruas apertadas da baixa, depois pela correria de todos na azáfama dos dias laborais. Mas é uma cidade que tem cada vez mais para oferecer. Vive-se cada vez mais intensamente a oferta cultural, concertos gratuitos em jardins, em bares ao fim das tardes de domingo. As bibliotecas recebem exposições, as galerias de arte renovam-se frequentemente. Os jardins, centenários, grandes, pequenos, românticos estão verdes nesta altura do ano e aguardam visitantes para que neles repousem a cabeça na relva. Da Cordoaria à Pasteleira, do Jardim dos Sentimentos no Palácio de Cristal às árvores centenárias do Covelo, ou numa visão menos bucólica, aí estão também os percursos da cidade. Caminhar ao longo do rio, numa visão constante de água, barcos e sol, descer a Rua de Santa Catarina e sentir o ritmo dos passos apressados de quem lá anda, do Marquês ao Largo da Batalha. Os museus da cidade, do de Arte Contemporânea de Serralves ao do Romântico, da viagem de eléctrico até ao seu museu, a travessia da Ponte D. Luís ao pôr-do-sol até ao Jardim do Morro, já em Gaia.

O Porto é uma cidade pequena, tem a dimensão perfeita para facilmente se atravessarem os seus bairros mais interessantes, tem a alma de muitas aldeias juntas que se querem habitadas e habituadas a quem nelas passeie.

  1. Maria Silva says:

    Parabens ! Para quem vêm de Vila do Conde, mostra conhecer o Porto, mas precisa conhecer mais a alma das gentes que cá vivem desde a era Industrial, das Ilhas de camões a Paranhos e Campanhã e pela Ribeira, Massarelos, Foz Velha…são eles que formam a caracteristíca e genuina alma Portuense.

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