30 Jun 2012, 11:58

Texto de

Opinião

A escola da Dona Cândida

São estas heroínas e heróis anónimos que fazem da missão de Professor um desafio recorrente e inesgotável só suportável por deuses demiurgos, passe a redundância, que muitos professores são.

Homenagem a uma mulher exemplar – Cândida Sá de Albergaria

Entre os vários caminhos com que me fiz vida calhou-me, em sorte, ir parar à Foz do Douro, onde vivi, mais de um ano, com o meu pai, num quarto de pensão particular na rua de Gondarém.

Esta mudança fez-me sair, dolorosamente, do meu “Rosebud ambiental” na rua Formosa, onde fui feliz com aquela força que só existe na infância e juventude. A minha ida para a Foz está tocada por um profundo sentimento de perda, perda de um tempo de sortilégio e dum espaço de convivialidade com aqueles que me acompanharam no meu imprinting social.

Fui, então, transferido da escola do Bonfim para a escola da Dona Cândida Sá de Albergaria. Naquela escola viviam, em saudável conúbio, os meninos e meninas da Foz favorecida e burguesa e os azarados da fortuna, sem eira nem beira, recolhidos no Lar da Criança Portuguesa, uma instituição de caridade que tentava tornar bons os meninos maus. Durante o ano e meio que vivi com esses órfãos de pais e carinho aprendi que existe um lado escuro da lua que muitas vezes é esquecido pela sua vertente luminosa.

No meu primeiro contacto com a Dona Cândida fui posto perante um texto que teria de copiar para a professora aquilatar o grau da minha destreza caligráfica. Perante os hieróglifos com que a presenteei, insensível à minha veia artística a tender para o abstracionismo, deu-me um caderno de linhas duplas, utilizado, no máximo, até à segunda classe e obrigou-me a exercícios extenuantes para apurar a minha motricidade fina. Perdi a conta às cópias intermináveis que me deixavam os dedos quase paralisados.

O meu estado larvar de iliteracia esbarrou na férrea da vontade transformadora da Dona Cândida. Muitas das tarefas que ela me propunha tinham as reguadas punitivas como corolário. Reguadas ministradas com contenção pois a Dona Cândida, desde que decidiu acolher-me debaixo da sua asa protetora, castigava-me como as mães castigam os filhos – com amor.

Quando entrava em desespero comigo e outros como eu, chamava o Arnaldo, 14 anos de homem alto e forte já castigado pelas exigências de trabalho precoce, e batia naquelas mãos fortes e calosas sem que esse meu hercúleo colega esboçasse o mínimo esgar de dor. Acalmava a “raiva” no Arnaldo que, embora fosse um pouco relapso para as coisas da cultura, era um ser humano excecional que não deixava transparecer em comportamentos desviantes os desvios que a vida tão cedo lhe proporcionara. O Arnaldo era o “Prozac” da Dona Cândida pelo que merecia o respeito reverencial de todos os seus colegas.

Com o denodo daquela santa mulher, e à custa de basta porrada diga-se, lá consegui vencer a 3ª classe. Para as férias a Dona Cândida submergiu-me em trabalhos de casa que eu, por medo, cumpri religiosamente.

Comecei a 4ª classe com um bom andamento que me motivou para ir cada vez mais longe e encheu de orgulho a minha adorada professora. Tornei-me o seu menino querido já que conseguiu moldar a martelo e cinzel a pedra bruta que eu era quando lhe cheguei às mãos. Fiz a comunhão em Maio e as luvas, cartilha e laço foram oferta daquela mulher e professora de exceção que me demonstrou que eu era capaz.

São estas heroínas e heróis anónimos que fazem da missão de Professor um desafio recorrente e inesgotável só suportável por deuses demiurgos, passe a redundância, que muitos professores são.

Quando nos faltam faróis podemos trilhar veredas estreitas que separam a vida digna da marginalidade. Eu escapei cair na parte sombria da lua pelo exemplo e amor de uns poucos. O contributo inestimável da Dona Cândida para a minha formação alicerçou-se na simbiose perfeita entre amor e responsabilidade. É isso ser Professor!

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Teresa says:

    Concordo com uma réguada ou duas quando merecidas. Penso que deveria voltar às nossas escolas com muita moderação e sentido de justiça. Evitava muita tragédia e sofrimentos maiores. Não é agradável, é verdade, mas não é o fim do mundo.

    A minha professora até nisso era mestra. Tinha uma régua pequena e quando a situação o justificava usava-a para dar a tal palmada que praticamente não doia mas tinha um efeito dissuasor. Era uma senhora muito sensível e percebia-se que tinha a preocupação de não nos magoar. E sabia dar mimo. Em quatro anos deu-nos quilos de mimo e uma dúzias de réguadas maternais. Agradeço-lhe umas e outras.

    Na sala de baixo era palmatória de caixão à cova. Ouvia-se o estalar da régua que parecia não ter descanso. Realidades tão diferentes…

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