17 Set 2013, 13:04

Texto de

Opinião

A Companhia Nacional de Bailado

As bailarinas e bailarinos da CNB são o exemplo de elevado profissionalismo que evidencia com força que a arte mais conseguida tem sempre o trabalho duro como cimento estruturante.

Balleteatro do Porto

Foto: Arq/Miguel Oliveira

Primaveril anoitecer em Lisboa. A cidade oferece-se dadivosa aos seus habitantes. As pessoas desfrutam a baixa da cidade em vagares de filósofo retomando a escola peripatética de Aristóteles. A polis discute-se em crescendos de medo e revolta. Os tempos favorecem o filosofar acerbo, a expressão da raiva incontida, o questionar de todos os porquês que nos conduziram a este estado de coisas e nos relega para os infernos da dependência externa. Procuram-se culpas próprias e alheias escalpelizando a história que é fértil em exemplos símiles que dizem bem da idiossincrasia pátria. Somos assim, não há volta a dar e quem nos quiser lógicos, metódicos e isentos de excessos então que crie a Utopia de que nos falava Thomas More e meta lá os portugueses à força.

As emoções da crítica são atenuadas com a catarse feita pelas discussões alteradas que pacificam com o aproximar do Teatro S. Carlos que nos prepara para outra dimensão, a dimensão do sonho e evasão. Vencendo os primeiros degraus do teatro, como por magia, desaparece a tensão castradora da inflação, dívida externa, política suja e corrupta, ordenados reduzidos, desemprego exponencial e todas as coisas más que nos punem o quotidiano. Quem são os magos que promovem esse sortilégio que nos permite, por momentos, fugir da pressão do existir reduzido que nos caracteriza atualmente e nos permitem viver sonhos de beleza e irrealidade que dão sentido ao viver? Esse sortilégio tem um nome – Companhia Nacional de Bailado.

Hoje calhou-nos O Lago dos Cisnes. Peça magistral de Tchaikovsky, com libreto de Begitchev e Geltzer, que nos conta o drama do príncipe Siegfried que vacila de amores entre um cisne negro e um cisne branco e, que no final, casa com o cisne branco, símbolo do amor puro. Eu por mim casaria com o cisne negro, cuja alma tortuosa traz promessas de paixões mais arrebatadas e incondicionais que o amor alvo e puro que nos transmite o cisne branco. Mas quem sou eu para condenar o libreto. Só me posso limitar à plena fruição estética que a CNB me proporciona.

As bailarinas e os bailarinos evoluem no palco transmitindo, com os seus corpos ágeis e elegantes, emoções de amor e ódio, numa arte de comunicação ímpar que não precisa de palavras mas somente de uma sublime expressão corporal que os bailarinos elevam à condição de arte. Aqueles corpos belíssimos em movimento fazem-nos entrar em mundos de fábula e ilusão que nos arrastam, momentaneamente, para os contos de cabeceira que nos dulcificavam o infantil adormecer.

Mas esta beleza tem um preço. Por vezes cruel.

Quando vemos aqueles corpos graciosos transportarem-nos para o enlevo do sonho não temos consciência dos sacrifícios que, muitas vezes, arrostam.

O ballet profissional é um mundo de dor e sofrimento que faz apelo à mais heróica resiliência. Por obrigação profissional e académica temos acompanhado a vida da CNB nos últimos dois anos. Penetrar naquele mundo especial permitiu-nos um nível de compreensão acerca das exigências físicas e emocionais que o treino do bailado de elite comporta.

As rotinas diárias são exigentes e começam com o apuramento técnico que nunca é descurado. Cerca de 2 horas por dia de treino árduo que não permite que aqueles corpos ágeis ganhem preguiças de comodismo. Depois a entrada na repetição sistemática das coreografias exigentes das obras clássicas ou contemporâneas que admiramos. O nosso sonho só é conseguido com o esforço estuante, estruturado numa disciplina férrea, que faz da CNB um centro de excelência.

Na nossa já longa vida de treinador desportivo poucas vezes vimos o corpo humano ser levado aos limites como em alguns bailados protagonizados pela CNB. Um dos desafios mais duros que vimos a CNB aceitar e vencer consubstanciou-se nos bailados “Prelúdio à sesta de um fauno”, “Grosse Fuge” e “Noite Transfigurada” de Anne Teresa de Keersmaeker. Esta coreógrafa alarga os limites da criatividade através da exploração “escrava” do corpo. Desafio extraordinário, física e emocionalmente muito exigente que vi os bailarinos e bailarinas da CNB vencer com um sorriso nos lábios e o corpo mergulhado em esforço e suor.

Corpos levados ao limite da expressão simbólica por vezes soçobram na disfunção e começam a conviver com a patologia. Fraturas, entorses, distensões, ruturas musculares, artroses, artrites, edemas, flebites, tromboflebites, escoriações, etc., fazem parte do dia-a-dia dos bailarinos/as profissionais.

Aqueles corpos que nos dão beleza e sonho vão sendo progressivamente desgastados em estigmas de usura. Só uma imensa resiliência global é capaz de ultrapassar os momentos de débacle física que recorrentemente caracterizam a elite dos profissionais da dança.

Resiliência à dor e pertinácia para tentar de novo, eis o lema da CNB. A CNB é uma fábrica de arte mas também de endurance física, psicológica e emocional. Os bailarinos/as da CNB, saltando da dança clássica para a moderna obrigam os seus corpos a esforços hercúleos de adaptação que pedem meças aos grandes desportistas da atualidade.

Os corpos esplêndidos através dos quais exprimem a sua funcionalidade artística são bem perpetuados por pinturas, desenhos e esculturas tais como eram os antigos campeões olímpicos da Grécia Clássica. Os bailarinos/as são o zénite da expressão estética do movimento humano. Com um grau de exigência física símile dos grandes campeões desportivos hodiernos veem acrescidos o seu grau de exigência pela expressão de arte que os seus movimentos comportam. O desporto é a expressão máxima do movimento humano em todas as dimensões – fisiológica, biomecânica, anatómica, etc. A dança é tudo isso, coberto com o inefável manto da arte.

À tríade axiológica olímpica Citius, Altius, Fortius, os bailarinos acrescentam Pulchriora que é aquela dimensão em que o movimento humano satisfaz a ânsia do Homem de fruição estética.

Os bailarinos/as têm no corpo a sua “enxada” de agricultores de arte. Não podem ceder às paixões da gula. Imensos sacrifícios para manter aqueles corpos ágeis, bonitos, graciosos. Se querem ser fautores de beleza não podem ser feios, obesos, disformes. E a disciplina de vida que os bailarinos/as profissionais aceitam, fazem deles algo perto dos eremitas que castigam o corpo para elevar a alma. Há algo de ascetismo na vida profissional de um bailarino/a e, por isso, são exemplares na forma como assumem a sua profissão.

Termino, agradecendo às bailarinas e bailarinos da CNB, não só os momentos de sonho que me permitiram fugir das premências e agruras do nosso coletivo viver, mas também o exemplo de elevado profissionalismo que evidencia com força que a arte mais conseguida tem sempre o trabalho duro como cimento estruturante.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  1. Olá Zé com estás? És fantástico com apresentação das tuas temáticas. Acho todas excelentes questões e esta é fantástica. Uma beijoca da tua velha colega Luísa Miranda.

  2. Domingos Silva says:

    Parabéns Professor José Augusto por mais um brilhante momento de filo-pedagogia desportiva. Homenageou os(as) bailarinos(as) como exemplo do culto do corpo. E não apenas os da CNB (ainda que estes tenham recebido atenção especial), mas todos os bailarinos(as). Mas há que ser justo e dizer, que muitos daqueles que hoje são profissionais da modelação morfológica humana, devem-no ao Doutor José Augusto, que enquanto professor nunca se desvinculou da imperiosa faculdade de ensinar e mostrar as múltiplas vantagens de um corpo participantemente activo e comunicante. De um corpo que jorre saúde e bem-estar, mas que também se eleve na sua motricidade. Ao contrário das “carícias” que muitos desejam, a arquitectura da máquina humana foi edificada para a realização de exercício físico vigoroso e não para a inércia que caracteriza muitas das actividades quotidianas. Ao contrário do que muitos pensam, é importante que por vezes nos sujeitemos a uma certa inquisição e sofrimento do corpo. Mas também é verdade que noutros momentos têm que estar presentes argumentos defensivos e afectivos. É o jogo da linguagem corporal na sua máxima expressão. E este jogo de forma, maleabilidade, pluralidade, aprendi com o Doutor José Augusto, e que agora me preocupo em transmitir aos mais jovens. Porque um corpo forte é um corpo são.
    Domingos Silva
    18-09-2013

  3. Ricardo Fernandes says:

    São (também) estas historias que nos permitem ir conhecendo herois e heroinas anónimos do nosso Portugal. Pena é que não se dem a conhecer em canais de maior divulgação.

  4. Pedro Nery says:

    Absolutamente surpreendente!…
    Onde estava escondida toda esta sensibilidade? Eu, com o decorrer dos tempos, estou cada vez mais insensível e macambúzio. Parabéns Zé e, já agora, continua apaixonado… Grande abraço.

    • Helena Ribeiro says:

      o texto maravilhoso que dignifica os bailarinos como merecem,só alguem que lide de perto com bailarinos de elite pode avaliar todo o esforço sofrimento e dedicação…como diz Serge Lifar…A dança é uma técnica ao serviço da arte…danço para viver e vivo para dançar!

  5. Isabel Lopes says:

    Olá Zé
    Parabéns por tão eloquente texto, com que prazer o saboreei e me revi nele, pois todos nós treinadores acabamos por sofrer com os nossos atletas o êxito, este obtido com trabalho, dor, alegria, sonho e muita paixão de todos os envolvidos

    Beijinhos e boa sorte da colega Isabel Lopes Aveiro

  6. Susana Matos says:

    Queria agradecer ao José o excelente trabalho que tem feito e o maravilhoso e sensível texto que escreveu sobre o trabalho dos bailarinos da CNB.
    Muito obrigada, Susana

Opinião

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