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Foto: Hugo Magalhães

19 Abr 2017, 14:46

Texto de

Opinião

A ciência light

Não podem restar muitas dúvidas ante uma constatação: vivemos numa Sociedade Light. Ele é a Coca-cola Light, os Corpos Light, os Iogurtes Light. Poderíamos enumerar umas quantas designações light na sociedade atual que permitem perceber que vivemos numa sociedade com dificuldade em mergulhar de forma densa nas coisas. A sociedade light afasta-se, por isso, da sociedade hard, aquela coisa densa, trabalhosa e laboriosa, que nos faz pensar e meditar a sério. Que chatice!

Imagem de perfil de Simão Mata

Simão Mata é psicólogo, mestre em Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça pela Universidade do Porto e estudante de doutoramento em Psicologia na mesma instituição. Os seus interesses profissionais e de investigação situam-se entre o fenómeno droga, a marginalidade urbana e a exclusão social. Vive na Maia, mas passa a grande parte do seu quotidiano no Porto. Gosta de cultivar uma atitude “flâneur” pela cidade, palmilhando becos, ruas e avenidas. Por vezes, tem a mania que é poeta e aparece mascarado com o pseudónimo “Pedro da Silva”.

A Ciência, como prática social que é, acaba por sofrer influências desta Sociedade Light. A Ciência Light é a ciência superficial, redutora, que vive e subsiste para alimentar a máquina dominadora de produção de artigos em massa e que forma cientistas Light, acéfalos e incapazes de exercer uma crítica sobre aquilo que fazem e produzem. Estes cientistas caracterizam-se por abordarem os seus objetos pela rama, anulando-lhes a sua densidade, profundidade e complexidade.

Aqueles que fazem investigação ou que se relacionam com essa prática de alguma forma, facilmente constata que esta Ciência Light é dominadora e hegemónica nos circuitos científicos e nas Universidades. Essa Ciência Light é refém das “hipóteses prévias”, dos métodos estandardizados, dos protocolos experimentais fixos e de resultados prontos para serem organizados e colocados ao serviço da Indústria do Conhecimento. Ela vive para alimentar a máquina demolidora de consciências. Os soldados dessa Ciência Light estão ao serviço dessa produção desenfreada de artigos, de papers, sendo incapazes de criar alternativas às novas formas de produção fordista. Neste quadro, qual o papel verdadeiramente emancipador e transformador que se espera destes cientistas Light que colecionam artigos, papers e conferências, como quem coleciona cromos na infância? E essa Ciência Light, privilegia uma mudança radical na Sociedade ou opera apenas num nível de manutenção do Status Quo?

Para mim, toda a investigação deveria ser um ato de experiência, de vivência, seja nos laboratórios, seja nos contextos “reais” de observação. Toda a Ciência deveria ser uma experiência científica irredutível e ao cientista deveria estar incumbida a tarefa de comunicar, mais do que os resultados produzidos, o significado vivencial de que foi alvo no dia em que optou por deixar a “vida comum” para escolher estudar, de forma hard e não simplista, determinado objeto de estudo.

Opinião

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