9 Jul 2012, 17:18

Texto de

Opinião

A cidade calada e os suspeitos do costume

A forma como a polícia tem manobrado a intervenção na ''cidade calada'' brota de uma completa desumanidade e desrespeito por quem já perdeu tudo.

É com um sentimento de revolta pessoal que acabo de ler a reportagem intitulada “Pela verdade”, escrita por Mariana Albuquerque e publicada na revista trimestral “Viva!”, edição de junho de 2012.

Nela está plasmado o orgulho policial no controlo das zonas da nossa cidade conotadas com o consumo e tráfico de drogas duras. “Pela verdade” parece-me um título falacioso ou não fosse exactamente “contra a verdade” que tais aparatos de força se exercem e perpetuam naqueles locais e atores.

Todos fomos colecionando ao longo do nosso desenvolvimento representações sobre a ação da polícia relativamente ao tráfico de droga. Enquanto escrevo estas palavras lembro-me do filme “Miami Vice”, um filme de 2006 que conta com Collin Farrell e Jamie Fox no elenco e que se poderá resumir ao combate ao tráfico de droga nas zonas up, isto é, as zonas escondidas, camufladas e não mediatizadas, de toda uma rede que vai desde o simples produtor até ao consumidor final.

Mas, como serão realizadas as operações policiais na “cidade calada”, isto é, nas zonas da cidade desiluminadas pelos meios de comunicação social e consequentemente pela opinião pública? Que sujeitos são o alvo de tais intervenções, que relações apresentam com a rede social em sentido lato?

Tratam-se essencialmente de indivíduos sem qualquer retaguarda familiar, laboral, social e afetiva e é no contexto dos bairros sociais da cidade que ensaiam a dimensão do sentir, do estar, do viver, quando as instâncias de controlo social quebraram o elo que os ligava outrora. E é aqui, nestes contextos alvo de aparato policial, que se “fazem à vida”. Não para comprar Ferraris, nem Porsches, nem moradias de luxo, nem para comerem camarões ou santolas em grandes marisqueiras.

São todos, quase sem exceção, sujeitos franzinos a roçar o esquelético porque o que comem nem sempre é rico caloricamente, algo que se nota bem quando os cumprimento com uma palmada nas costas e lhes sinto os salientíssimos ossos dos ombros, recobrindo-me toda a mão.

Sim, “passam” muitas vezes substâncias psicoactivas porque não aguentam as dores no corpo da ressaca intensa de que são vítimas ao longo do quotidiano e porque os dispositivos de intervenção nem sempre estão oleados para que respondam adequadamente aos seus problemas.

Através de um processo de exclusão em espiral, foram sendo “arrastados” para locais onde imperam condições de desumanidade absoluta em países que se assumem como desenvolvidos. Mesmo assim, é de salientar o carinho manifestado e o sentimento de pertença que estes locais assumem para a vida diária destes sujeitos. Apesar das condições difíceis, sempre é um sítio para pernoitar, enfim, é um sítio que é seu.

A forma como a polícia tem manobrado a intervenção naquelas zonas brota de uma completa desumanidade e desrespeito por quem já perdeu tudo, e aquilo ali, por muito pequeno que seja, pode ser sempre o que lhes resta de si e do Mundo.

Posta esta caracterização muito geral dos atores desta cidade calada, importa agora falar sobre a intervenção policial propriamente dita.

Como é feita? Sabemos, porque a reportagem “Pela verdade” já nos fez questão de informar, que esta intervenção apresenta uma dimensão obscura, escondida, de investigação. Vejamos a forma misteriosa e sinistra como o chefe Rui Mendes nos mostra a situação: “Muitas vezes, preferimos adiar as operações a colocar em risco os informantes”. Contudo, a intervenção policial apresenta uma dimensão observada, explícita, que tem como alvo predileto os sujeitos representados acima, ao ponto de algumas ações violentas da polícia serem perpetradas até aos limites da suportabilidade e da dignidade humanas, desde pancadas violentas no corpo gerando hematomas ou então proporcionando fraturas graves, inclusivamente nas costelas, impedindo o natural ato de respirar. Ou então, queimando os pertences e os locais de pernoita dos sujeitos, gerando um foco de revolta e mal-estar generalizado, ampliando cada vez mais os sentimentos hostis que existem entre a polícia e estes suspeitos do costume.

Muitas vezes, deixados sozinhos com a seropositividade, estão numa situação de tal degradação física que apresentam movimentos cansados e, como se já não fosse olímpico esse fardo de terem que carregar fisicamente consigo, são violentados também pelo braço armado da polícia. Mas, ainda assim, a polícia parece reconhecer a situação e os resultados de tal perseguição à cidade calada e aos suspeitos do costume: “É o jogo do gato e do rato: umas vezes ganha o gato, outras, o rato”, diz um dos agentes na reportagem suprarreferida, o que me deixa com a esperança de que a polícia, à semelhança dos dispositivos de intervenção sócio-sanitários que se foram erigindo, possa também refletir acerca da sua prática e com isso se regenere e transforme.

Não me vou alongar mais. Tudo isto se passa e acontece e nada é dito. Os nossos média permanecem mais entretidos e preocupados em documentar a atitude miraculosa da nossa polícia nos lugares calados da cidade do Porto do que compreender verdadeiramente o que se passa nestas zonas e nas pessoas que lá estão, condenadas ao seu próprio destino.

Qual o seu quadro de vida? O que fazer para criar plataformas humanas de auxílio a esta gente? Eis uma penumbra, eis a cidade calada. Mas é exactamente aqui que a polícia trabalha “pela verdade” e que “correm os mais variados riscos, no terreno, para honrar a ‘cor azul’ que não vestem, mas sentem”.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.

  1. Teresa says:

    Parabéns pelo texto Simão, não podia concordar mais. Infelizmente, é sempre mais fácil atacar quem não tem voz. Ao ler o texto lembrei-me de um poema de Brecht:

    O que tem fome e te rouba
    O último pedaço de pão, chama-o teu inimigo
    Mas não saltas ao pescoço
    Do teu ladrão que nunca teve fome.

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