22 Jun 2012, 17:24

Texto de

Opinião

A carta que me envergonha

Somos mal-vistos no estrangeiro, mas os craques da seleção não são tira-nódoas, nem detergente. Peçam-no aos responsáveis pela situação.

Com mais ou menos sobressaltos, a seleção das quinas lá vai seguindo em frente, no Euro 2012, o que é motivo de alegria e nos enche de orgulho. Uma alegria sofrida e festejada em cada jogo. Uma alegria cívica, patriótica e nacionalista – por que não?

Ainda que sem um desempenho de exceção – jogar para ganhar é o que lhes compete –, os nossos rapazes fazem o papelão de, neste ano de todas as crises e depressões, proporcionar a Portugal e aos portugueses um momento de euforia. Tanto basta para que o Povo os eleve à categoria de heróis e, pondo entre parênteses a incerteza dos dias, pare de trabalhar, deixe de comer ou de dormir para os ver jogar. Como se a alegria da vitória conseguisse, neste momento de euforia, matar toda a sua fome e sede de justiça.

Pertenço a esse Povo e, naturalmente, comungo da mesma alegria sofrida em cada jogo e festejada em cada vitória da seleção portuguesa (que não se esgota no “11” em campo e vai além dos atletas). E, ainda que a alegria seja escassa e acabe na quarta-feira, eles continuarão heróis do povoa merecer o meu orgulho.

O que me envergonha, em termos de Euro 2012, são aspetos de uma campanha publicitária ignóbil, lançada no âmbito da operação “Vamos lá, Portugal”. Refiro-me à “Carta à Seleção“, cujo teor demonstra bem até que ponto chegou a desordem de valores.

Um adolescente, que dá pelo nome de Guilherme, lê aos jogadores a sua carta, em que diz o seguinte:

“Eu quero ser médico ou biólogo e gostava de trabalhar em Portugal, mas só fico se valer a pena. É ai que vocês entram. Vocês têm nos pés uma oportunidade que os nossos médicos, advogados e políticos nunca terão nas mãos. Vocês têm a possibilidade de mudar em campo a opinião que o mundo tem de nós. De mostrar que não somos fracos e preguiçosos, mas que sempre fomos e continuamos a ser um povo honesto e trabalhador (…)”

Num outro capítulo da campanha, assente nos mesmos pressupostos, são atores e cientistas que se dirigem à seleção, incumbindo-os da mesma tarefa: limpar a imagem de Portugal no exterior e recuperar o respeito internacional.

Como cidadã portuguesa, fere-me fundo o oportunismo saloio desta estratégia de marketing.

É óbvio que processos como os da pedofilia, da Euroárea e Face Oculta não projetam boa imagem do pais no exterior e o mesmo acontece quando se fala de corrupção na esfera do poder e de negócios ruinosos como os do BPN e parcerias público-privadas, com que já hipotecámos as gerações dos nossos filhos e dos nossos netos. E o que dirão os estrangeiros de um país paupérrimo cuja Presidência apresenta contas superiores à da Coroa espanhola? E da impunidade reinante?

Não restam dúvidas de que somos mal-vistos no estrangeiro, mas os craques da seleção não são tira-nódoas, nem detergente. Peçam-no aos responsáveis pela situação. Por exemplo, a Dias Loureiro, que deixaram fugir e que vem agora contar, despudoradamente, num canal televisivo, o quanto “ganhou” nos 4 anos de BPN.

Eu sinto vergonha pelo envolvimento oportunista da seleção, num momento em que o mundo está de olhos postos nela.

Alice Rios escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. Liseta Maria Correia da Silva Pereira says:

    Gosto da forma aborda certos temas e este é ais um , mas creio que o deixaram fugir, como diz o povo, para “não botar” a boca no trombone, aí sim, teríamos muitos a fugir. Vá lá que alguns já vão sendo presos e as informações já se vão cruzando, até já sabemos pelos Jornais, onde está o famoso “Milhão dos submarinos”, agora cabe ás instituições de direito reaver este “bago”e aos Portugueses exigirem a restituição através do congelamento dos bens.Com bons “detergentes”, como a Drª. Morgado e outros talvez se consiga limpar alguma imagem negativa que exista por aí.

  2. João Rodrigues says:

    Gostei quando me apercebi de que a carta à qual se estava a referir era precisamente esta. Era um episódio que eu andava a atrasar para pensar e para discutir num outro “sitio” por ser um bom exemplo de Manipulação, mas há muitos mais…
    Sim, de facto há uma grande quantidade de propaganda nesta carta infantil. Contudo, a única ressalva que faço é uma única observação: parece ser cada vez mais recorrente durante estes tempos uma atenção à corrupção, o que por um lado é bom, menos quando essa atitude é apenas baseada na suspeita que “andamos a ser roubados” e não existe infelizmente uma investigação e interesse célere na busca de factos que acredito serem importantes para darem à sociedade uma opinião fundamentada e dessa forma saciar esta sede de justiça. Se não for pela informação-extra e pensamento critico, a angústia será proporcional à frustração levando a uma impotência rotineira.

  3. alice rios says:

    Boa noite!Com o seu nome conheço varias caras.Será mais um J. Rodrigues? Bom,o que quero dizer é que esta sintonia abre curso a mais reflexão em cima desta carta. O silêncio sobre ela é que faz maior ruído.
    Abraço.

  4. E näo sera, o futebol que vai mudar a opiniao dos estrangeiros sobre os portugueses, sei muito bem e sinto na pele, eu na Suica.

Opinião

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