18 Jan 2013, 13:04

Texto de

Opinião

A Boa Zona

No metro, encontra-se o mundo. Na estação mais cafeinada da linha, Sete Bicas, entram uma jovem com o brilho nos olhos e um velho que se senta ao meu lado.

Sai de casa, Carlos. Não adianta molengar no sofá, fofo e falso como os marshmallows. O que interessa é zarpar, ir ver o mundo, e não “zappar”, que é uma viagem muito diferente. No mundo real, ainda acontecem coisas boas, Carlos, fala-se de outros temas, o vocabulário do mundo é bem mais vasto do que o interior do Expresso.

Por isso o Carlos relega para o fundo da despensa a frustração do annus terribilis, as “zandinguices” e os agoiros do 2013 que é mais 13 do que 2000. O Carlos veste-se e sai de casa, dá corda aos sapatos seniores – agora diz-se seniores e não idosos e muito menos velhos, é uma verdade inconveniente – e convence-se a dar novos mundos ao mundo. Ir dar uma curva. Uma volta ao bilhar grande. Desamparar a loja que, de qualquer forma, deve estar a entrar nas melhoras da morte, que são as derradeiras promoções antes do fecho.

Agora na primeira pessoa, que isto já começava a parecer uma flash “entreviu” no final de um jogo de futebol.

Uma chuva miudinha encharca-me as intenções mal ponho os pés fora da porta. Um vento chato empurra-me para dentro. O seu assobio nas dobradiças do prédio lembra um coro triste de uma ópera sem fim à vista. Talvez seja melhor ficar em casa. Mas não. O metro está aqui perto e lá dentro não chove. Até ver.

No metro, como em qualquer transporte público coletivo, encontra-se o mundo. Para além do mundo, encontram-se jornais, na esmagadora maioria gratuitos, seja por natureza ou porque alguém os pagou e depois os renegou. Eu não quero ler jornais, mesmo que um monte desarrumado deles chame por mim no lugar ao meu lado. Na verdade quero fechar os olhos, mas tenho medo de adormecer e dar por mim em Campanhã. Pior ainda, vendo os caminhos-de-ferro à minha frente, meter-me num comboio e fugir daqui. Não pode ser.

Viajo sozinho. Imagino à minha volta uma luz negra que repele companhia. Os meus olhos evidenciam o excesso de sono de quem passou demasiado tempo em casa. Na estação mais cafeinada da linha, Sete Bicas, entra uma jovem – mesmo jovem, daquelas raras que ainda trazem o brilho todo nos olhos – que me surpreende, sentando-se à minha frente. Em seguida, seguindo a ordem natural das coisas, há um sénior – um velho, pronto – que se senta ao meu lado, sacudindo sem pudor os jornais. Está de frente para a menina, que ajeita a minissaia para tapar mais um milímetro de pernas. O homem sorri. Ela reflete acerca da paisagem bucólica que carateriza a zona do Viso. Alberto Caeiro adoraria trazer o rebanho para aqui.

É então que se inicia a conversa:

– Eu conheço-a.

Silêncio. Ramalde, bela Ramalde.

– A menina não é filha da Maria?

Provavelmente. Tal como 99,9% dos portugueses. Até eu sou filho da Maria. E não estou a puxar para a bíblia. Para além disto, silêncio. Ramalde diz adeus como o verão no fim de Agosto.

– Mas é daqui de perto, não é?

O cansaço vence-a.

– Sim.

O esgar triunfal do velho – o sénior – faz-me sorrir. Conseguiu arrancar-lhe um monossílabo. Motivado pela conquista, dono de uma persistência louvável, continua.

– Eu gosto disto aqui. Já cá venho há muitos anos. É sossegado, as pessoas são educadas, gostam de conversar.

Pois. Ela vira e revira os olhos. Tira uma pastilha elástica da carteira e mete-a na boca, como se o “nhac-nhac” a ajudasse a ignorar a voz do homem.

– A menina acha que é uma boa zona?

Choque.

– Desculpe?!

O último a rir sou eu, afinal. Unidos numa cumplicidade comovente, olham-me ambos de repente, reprovando a intromissão da minha gargalhada. Vá, já podemos dar meia volta e regressar a casa. Já valeu a pena ter saído.

Carlos Luís Ramalhão escreve segundo o novo acordo ortográfico

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