20 Jun 2012, 9:25

Texto de

Opinião

A Biblioteca Popular do Marquês

Encerrar gratuitamente uma biblioteca apenas demonstra como a tirania de espírito comanda quem nos governa.

Ocupação da biblioteca do Marquês

Foto: Ana Cancela

A 6 de Janeiro de 1948, foi inaugurada, em pleno Jardim do Marquês, na baixa do Porto, uma das primeiras bibliotecas populares de bairro da cidade e do país, a Biblioteca Infantil de Pedro Ivo.

No Boletim das Actividades Culturais da Câmara Municipal do Porto, datado de 1951, pode ler-se a seguinte motivação: “o seu fim é fornecer gratuitamente os indispensáveis meios de cultura intelectual e aperfeiçoamento profissional às classes mais humildes, tendo também em vista a sua formação moral e cívica, que, em caso algum, poderá ser contrariada por leituras que não sejam rigorosamente honestas”.

Pelo carácter inovador inerente à disponibilização de livros num jardim, local propício ao bem-estar e ao usufruto da natureza, o projecto foi aclamado por todo o país e, durante diversos anos, até 2001, muitas centenas de crianças usufruíram dos livros e das horas do conto aí vividas.

Mariana Leite, doutoranda em Literatura Medieval, de 28 anos, recorda-se bem desse tempo “A Biblioteca do Marquês era o lugar das férias da minha infância, sobretudo entre os 8 e os 12 anos. Lá aprendi um amor aos livros diferente: um amor reverencial, de respeito e responsabilidade. Lá fora, o jardim era o nosso recreio.”

Quando inquirida sobre as melhores recordações desse tempo, Mariana não hesita “Uma das memórias mais doces das horas que lá passei prende-se com um concurso de poesia do já extinto ‘Comércio do Porto’. A D. Maria Luísa, a querida bibliotecária, incentivou todos os meninos a escreverem um poema de Natal. Escrevi um e  ganhei o prémio. E vi o meu poema colado nos vidros da Biblioteca. Levo sempre a lembrança de um misterioso  livro que marcou a minha infância, um livro de contos que ainda não reencontrei. O meu coração sempre apertou perante as janelas, antes cobertas de desenhos de crianças, entaipadas e mortas.”

No passado dia 16 de Junho, um grupo de cidadãos decidiu abrir as portas vergonhosamente encerradas da biblioteca abandonada e empenhou-se na primeira fase de obras, antes da abertura ao público em geral, em devolver o espaço à sua função primordial, facultar livros e actividades lúdicas à população sem qualquer tipo de contrapartida económica ou de lucro envolvido.

A população idosa, assídua do Jardim, viu com bons olhos a abertura da biblioteca abandonada e ouviram-se comentários a concordar com a restauração do espaço. Contudo, apenas 3 dias depois e já o espaço limpo, organizado e recheado de algumas dezenas de livros e mobiliário, funcionários camarários acompanhados de agentes da polícia procederam ao seu entaipamento e esvaziamento do material, remetendo-o obscenamente para o lixo, os livros presos e encaminhados para a esquadra e a porta emparedada e as janelas entaipadas, agora cobertas com vergonhosas placas cinzentas. Ao contrário do que foi veiculado por um órgão de comunicação social, não ocorreram nos 3 dias qualquer tipo de identificação de indivíduos e nenhum cidadão foi identificado pela polícia por “injúrias e agressões a agentes de autoridade”.

Numa altura em que a crise económica e, bem pior, uma crise identitária de valores se instaura um pouco por todo o mundo ocidental, nesta época de profunda desilusão, desmotivação e agravamento sistemático do poder de compra dos cidadãos e da sua qualidade de vida, urgem movimentos cívicos semelhantes. Os livros, e a sua vertente máxima, a cultura, sempre foram tidos desde a génese da cidade grega como instrumentos de formação cívica, de enriquecimento individual e pessoal.

Encerrar gratuitamente uma biblioteca é um dos actos mais tiranos perpetuados pelo poder instituído. É um atentado contra a liberdade individual e apenas demonstra como a tirania de espírito comanda quem nos governa.

  1. teresa cruz says:

    Serviu, pelo menos, para chamar a atenção para o que podia ser feito, sem custos, em regime de voluntariado, e que não se aproveitou.Pena!
    Pode ser que, num tempo próximo, a CMP abra os olhos.

  2. Cara Ana Cancela…
    gostei muito do trabalho de investigação que fez, para nos poder informar da verdadeira história do Biblioteca do Marquez.

    E estou plenamente de acordo com a iniciativa de a voltar a trazer ao povo, e vela a cumprir o seu trabalho se informar o Povo! No entanto não estou de acordo.., ou melhor não consigo entender a forma como estas ocupações são feitas???

    Não basta uma boa intenção, ela tem de ser organizada e multidisciplinar! tudo isto que “andamos” a fazer em termos de ocupação, não me pares-se ter um plano estruturado a curto médio e longo prazo… alias até me faz lembrar o pós 25 de Abril.., em que se entrava e ocupava.!! Passaram já alguns anos desde 1974 e as coisas estão como estão, pois a intolerância, a revolta continua a ser o maior impulso para este tipo de situações…

    Conheço muitas profissionais da Área social que passam anos a procurar um lugar de forma legal… e isto, de certa forma invalida estes meios que estão a ser utilizados na Cidade do Porto pelos movimentos que são mal vistos pela CMP. Temos de repensar a nossa forma de luta… pois não podemos utilizar as mesmas formas de luta que se utilizou no 25…

    Tudo isto preocupa-me bastante… mas de verdade que aqui ninguém é dono da verdade… a forma como ocupamos a biblioteca… a forma como desocuparam a biblioteca. E tentar Dialogar, não?

    Parecemos políticos que andam sempre a chamar a verdade para o seu lado!!!

    Obrigado :)

    • José Ramos says:

      Por causa destas tretas, é que estamos como estamos (os que “estão”);é por causa dos “paninhos quentes” que o povo português está a ser “abusado”, explorado,…é certo que esta é uma forma revolucionária de resolver as coisas, mas às vezes só assim é que funciona:forçando a “barra”, fazendo “acordar” os poderes instituídos, forçando-os a agir;

  3. Nuno Xandinho says:

    Caro João,

    infelizmente dialogar com políticos como o Sr. Rui Rio é um mero exercício de futilidade; dialogar com gente que não é séria, que usa as artimanhas que a lei permite para parar toda e qualquer iniciativa que não esteja integrada nos seus próprios canais e círculos de interesses, não adianta.

    O que aconteceu na escola da Fontinha foi exectamente isso; uma promessa de arrendamento por 30 euros mensais que na leitura do contrato se revela apenas por dois meses. O argumento foi que uma obra de cariz social já estava programada para o mesmo local e para o mês seguinte. Não disseram foi seguinte a qual… Eu estava capaz de arriscar que o cariz social do que vai lá ser
    construído será mais aproximado ao que aconteceu no bairro S. João de Deus…

    E podia dar-lhe exeplos de outros casos relacionados com autarcas, com os poderes que possuem e a influência destruidora na vida de muitas familias que era capaz de lhe retirar qualquer “fé” na humanidade desses seres e dessa “classe” tão valiosa para o país ao ponto de graças a eles estarmos como estamos; os políticos! Estão mais interessados em manter-nos distraidos e entretidos em oposição a instruidos e informados.

    Impedir que movimentos espontâneos de cidadania como a Es.Col.A e a Biblioteca do Marquês vai ser a linha de acção; permiti-lo é um grande risco para os “poderes” instituídos. Iria eliminar muitas hipóteses de “negócio” que nos dias que cortrem parece ser tudo o que importa.

    Parece-lhe admissivel, os profisionais da área social que conhece que tentam de forma legal ao fim de ANOS não terem um local para esses projectos havendo tantos de espaços devolutos como estes? Não interessa à máquina; não dá lucro! E acha á admissível que quando a população está disposta a intervir, arranjar e inclusivamente equipar por iniciativa própria e sem contrapartidas os nossos governantes usem os seus funcionários e polícia para destruir tudo o
    que foi dado para ser usado? Acha que eles querem ajudar? A quem?

    Sim, um novo 25 de Abril é necessário. A sua forma? Facilmente poderiamos fazer um 25 de Abril completamente pacífico, não fossem as “forças da ordem” existirem apenas como instrumentos, mais uma vez, do poder. Seria aí o início da violência como tem sido em casos muito próximos…

    Também duvido que todos nós estivessemos dispostos a sacrificar o precisavamos para fazer uma revolução. Teriamos de ser TODOS e não conheço muitos que estejam dispostos (já para não dizer alienados de qualquer consciência do poder que todos e cada nós temos, pela comunicação social, especialmente a TV e os Telejornais, salvos apenas por um ou dois comentadores incolores) mas estão a aumentar…

    Fé é necessária mas nas pessoas certas. Sugiro que conheça os sítios e as pessoas se puder e construa a partir daí a sua opnião. Foi o que fiz eu.

    Mais movimentos destes vão surgir! O Porto está a renascer e aqui se vê isso!

    Cumprimentos e

    Bem dito Ana!

  4. Pedro says:

    Acho que ocupação ilegal de um espaço deve ser tratada como tal, independentemente das intenções.
    Entristece-me que um jornalista, que supostamente deveria ser imparcial na publicação da noticia, não tenha facultado o ponto de vista do dono legal do espaço, fazendo apenas uma vã defesa de um grupo de criminosos que sem respeito pela propriedade alheia invadiu um espaço encerrado.
    Iniciativas a favor da comunidade são sempre bem vindas e nunca em demasia, mas devem sempre seguir os meios legais e nunca confundir boa acção com acto criminoso.
    Enfim, online cada um escreve o que quer, e infelizmente a maioria não tem cabeça suficiente para ler entre as linhas e distinguir jornalismo de lixo de jornalismo bom, por mais amador que este seja.

    Mal dito, Ana.

  5. José Nogueira says:

    Ó Pedro! Que frustrante deve ser para si já não poder votar no Rui Rio nas próximas eleições! Ainda bem que a minha querida Invicta se vai ver livre (finalmente!) do pequeno ditador, com a devida vénia ao Chaplin, ao fuehrerzinho (Deutsche Schule ueber alles!) de meia-tigela, que tanto prejudicou a cidade em 12 anos. Seja quem for que venha a seguir, de certeza que não poderá fazer pior.Não fora a extraordinária “resiliência” dos portuenses e a espantosa (e surpreendente) capacidade de iniciativa, criatividade, empreendorismo, atrevimento e coragem de muitas centenas (se não milhares) de jovens, portuenses e não só, nacionais e estrangeiros, que trnsformaram radicalmente a cidade nos últimos anos, o que seria hoje do pobre Porto…

Opinião

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.