12 Out 2012, 10:21

Texto de

Opinião

A barca não afunda porque a memória não tem peso

Qual é a imagem de cidade que estamos a transmitir para o futuro? Se for nítida, não poderá deixar de ser a de um deserto de gente.

bARCA da Memória

A bARCA da Memória, no Douro. Foto: Miguel Oliveira

Estava eu a meio de escrever esta crónica quando me chegou a notícia de que a bARCA da Memória se recusava a recolher ao seu leito de 100 anos. Quando a realidade se intromete assim na escrita com uma parábola tão perfeita seria insano resistir-lhe. Por isso, levam desde já com o título, mas retomo a crónica que já estava escrita, deixando a moral para o final.

Sabem o que eu gostava de depositar na bARCA da Memória do Porto? O desejo de que, daqui a 100 anos, eles façam muito melhor cidade do que nós. Neste momento, o retrato que temos para dar em memória futura está muito desfocado. Pouco digno para encaixilhar.

Os que, no ano 2112, forem pescar os pipos de aço não devem precisar que sejamos nós a contar-lhes como aqui chegamos, mas antes como aqui estamos. É nossa, como será deles a história que já se escreveu por estas ruas. A cidade da resistência ao bispo e aos nobres, a cidade dos comerciantes e da iniciativa privada, a cidade liberal capaz de resistir ao cerco absolutista, mas também a cidade que ficou depois do descalabro financeiro da “salamancada”, da derrota política do 31 de janeiro, do centralismo com que se fez grande parte do século XX e se faz o século XXI.

Para lembrar isto tudo e tudo o mais que aqui não cabe, os vindouros terão a História para reler. A bARCA é o armazenar dos testemunhos do hoje, numa espécie de foto instantânea de um momento histórico, composta pelo acaso das histórias que os portuenses aí depositaram. E se é certo que os portuenses do futuro não deixarão de encontrar motivos de sobra para se encantar com as vidas dos seus antecessores, não deixo de me perguntar qual é a imagem de cidade que estamos a transmitir para o futuro.

Se ela for nítida, não poderá deixar de ser a imagem de um deserto de gente. Porque, se nos distanciarmos o suficiente para vermos o fio da história de que somos contemporâneos, poderemos ver marcos na VCI, nas novas pontes, no Parque da Cidade, no metro, na consagração como Património da Humanidade, momentos para figurarem em qualquer cronologia futura. Mas a grande mancha das últimas décadas não pode deixar de ser a da sangria de população que o Porto tem sofrido.

Entre 1990 e 2005, perdemos 69 mil habitantes. Entre 2001 e 2011, o último censo regista uma perda de 25.572 habitantes, menos 9,7%, a quebra mais elevada entre os 28 maiores municípios, a única a chegar quase aos 2 dígitos, numa lista em que esmagadora maioria dos municípios cresce de população. Abaixo do Porto, que hoje tem 237 mil habitantes, as maiores perdas são de Coimbra, -3,6%, e Lisboa, – 3,4%.

Esta é a dimensão da nossa perda. É uma cidade sem gente, de casas fechadas, ruas vazias, praças abandonadas, mercados desertos, é muito menos cidade do que o que poderia ser. É muito menos encontros, diversidade, participação, experiências, cruzamentos, vida… Aquilo com que se escreve comunidade, o que dá sentido a todo este cenário que sem gente pode ainda ser Porto, mas é muito mais morto.

É nesta altura da crónica que volta a entrar a bARCA que não se afunda. Prefiro pensar que quem movimentou tantos média para uma ideia interessante sabe fazer as contas para contrariar o princípio de Arquimedes. E que também deve ter previsto forma de as cápsulas permanecerem no lugar da submersão sem serem arrastadas pelas correntes marítimas. Seria pouco correto para com os portuenses de 2112.

Certamente não foi falta de preparação dos promotores da iniciativa. O problema é que eles não poderiam prever a falta de densidade das memórias de uma cidade cada vez mais vazia. Sem as redes que se constroem numa vida em comum, falta hoje peso à nossa história de cidade. Por isso, deito o meu voto no oceano digital para que os que resgatarem a nossa memória estejam a fazer bem melhor do que nós.

David Pontes escreve segundo o novo acordo ortográfico

  1. José Nogueira says:

    É verdade que a Invicta perdeu 100 mil habitantes em 30 anos (30% da população). No entanto, apesar das políticas hiper-centralistas da Capital do Império, no mesmo período, Lisboa perdeu quase 300.000! Ou seja 35% da sua população. Porque é que quase nunca ninguém fala disso? No mesmo período,ainda, Paris e Londres, duas das mais importantes cidades do mundo, também perderam população para os subúrbios. Não esquecer ainda a tragégia social que se abateu sobre uma das maiores cidades americanas, cujo centro, hoje em dia, mais parece uma zona de guerra ou um bairro de lata de qualquer cidade do 3º Mundo.Há muitos sinais positivos no Porto, nomeadamente na Baixa, apesar de Rui Rio. É preciso conhecê-los. Como jornalista esse é o seu dever. Lamento que seja mais um a dar tiros nos pés. A mui nobre e sempre leal cidade do Porto não precisa disso.

Opinião

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