14 Set 2012, 15:49

Texto de

Opinião

A anatomia da revolta

Todos irão sair aos gritos no sábado, mas, no domingo, tudo estará igual, exactamente e penosamente igual. As pessoas continuarão desertas e ocas de ideias, num mutismo que me indigna e quase me enoja.

Ontem acordei com a notícia de um amigo que, abnegadamente, se sentou na rua mais movimentada da cidade do Porto e, de cabeça baixa mas coragem bastante erguida, iniciou uma greve de fome motivada pela necessidade de um emprego justo e digno. São amigos assim que me dão vontade de lutar e não cair, mais uma vez, no absurdo e inócuo que é fazer-se activismo virtual ou manifestações estéreis que não levam a lado nenhum e só deprimem.

Há toda uma onda de desilusão provocada pelas recentes medidas de austeridade. Compreendo porque, tal como todos, sinto na pele as restrições mas não são elas que me fazem baixar os braços. Bem pelo contrário.

Antes de mais, é fundamental alterar o paradigma da riqueza, o desejar o último modelo de telemóvel, de computador, o plasma mais fino, o carro mais potente, as roupas de marca, os pensamentos e ideias pré-concebidas.

É fundamental e urgente um despojamento material. Quando o dinheiro já não é mais suficiente qual a imediata solução para alguns? A desilusão, o desespero, a morte lenta por desalento nos casos mais extremos.

Mesmo em época de crise, de contenção salarial, de redução dos direitos e liberdades ganhas em Abril, apesar dos malfadados tempos, vivemos ainda imbuídos de uma liberdade que não existe em mais de metade dos países, somos ainda parte do dito primeiro mundo, do lado rico do planeta.

E estas dificuldades que agora aparecem não são elas próprias consequência mais do que esperada do capitalismo gritante das últimas décadas? Mais de metade do mundo passa fome obscena e vive abaixo das mais básicas e mínimas condições de sobrevivência e a nós, meninos do mundo rico, basta um aumento de uma taxa para virarmos baratas tontas sem já chão nos pés.
No próximo sábado, dia 15 de Setembro, estão marcadas manifestações por todo o país. Eu não vou, estarei a trabalhar. Desdobrar-me-ei em 3, durante a manhã num local, à tarde noutro e a noite chegará e estarei a trabalhar numa terceira ocupação. Em nenhum dos 3 desempenharei as funções das licenciaturas que estudei.

Eu não vou à manifestação porque toda esta revolta que me dizem correr no mundo virtual não a sinto nas ruas, as ruas estão desertas e ocas de ideias, as pessoas revoltosas querem muito, dizem muito, agora todos têm opinião, todos irão sair aos gritos no sábado, mas, no domingo, tudo estará igual, exactamente e penosamente igual. As pessoas continuarão desertas e ocas de ideias, num mutismo que me indigna e quase me enoja.

Há 10 anos estive em Varanasi, naquela que foi a primeira viagem fora do continente europeu e no coração trazia a emoção de estar no país que mais sonhava visitar. Varanasi é uma cidade que impressiona, é o local sagrado dos ghats de cremação e num deles, o maior, conheci uma senhora muito velhinha, o peso dos anos curvava-a e o branco dos olhos impedia-a de continuar a ver a vida que velozmente lhe fugia.

Pediu-me uma moeda e apontou com o tímido dedo para a frente e eu, na minha riqueza de menina do primeiro mundo, fiquei mais moribunda do que ela porque compreendi. A senhora juntava moedas para ter a quantia suficiente para comprar a madeira que serviria de alimento para a sua cremação. A senhora adiava a vida até ter a morte em moedas na palma da mão.

Anos mais tarde, no Instituto Português de Fotografia, na antiga Cadeia da Relação do Porto, numa incrível exposição de fotografia da qual já não me recordo o nome, tornei a encontrá-la emoldurada na parede e o branco dos seus olhos perseguia-me e sei que sempre a recordarei até ao dia em que eu própria morrer porque ela, na sua morte, serviu de exemplo para a minha vida.

Não tenho televisão, são poucos e bastante selectivos os jornais que leio, o meu acesso actual à internet é limitadíssimo e restrito apenas ao que considero urgente, como escrever este texto e enviá-lo. Informo-me junto de amigos, em conversas quentes à volta de uma mesa, com o calor da discussão acesa presente. Tenho plena consciência do panorama actual e das restrições que se vivem e é em alturas assim que mais frequentemente me recordo da senhora de Varanasi.

No fim-de-semana passado reparti o meu almoço com um cão que mora no tristemente abandonado Jardim de São Lázaro. Uma senhora de meia-idade aproximou-se de mim e sussurrou-me: “Por favor menina, olhe, esse cãozinho já o alimentei hoje, dê antes a sua comida à senhora ali sentada, que ela passa mais fome que o cão”.

Se me tiram algo, se o Estado é obsceno e prefere cortar nos direitos e nos ganhos dos trabalhadores, em vez de imputar essas medidas exclusivamente aos grandes grupos económicos, eu não vou desanimar. Se o Estado não cuida dos mais pobres, de quem passa fome, o Estado não existe, o Estado somos nós. É nossa obrigação cuidarmo-nos uns dos outros.

Quanto mais me calcam e oprimem mais vontade me dá para lutar e agir. Se me tiram uma percentagem nos ganhos e me aumentam uma nos impostos, não vou gritar para a rua num acto que em nada fará mudar esses valores. Vou procurar outro caminho, outra solução.

Gostava que não fosse o dinheiro a maior motivação actual e sei bem que ele pode não ser a felicidade mas contribui definitivamente para ela. Mas é preciso um despojamento progressivo, um querer viver de uma forma mais justa, mais saudável.

Enquanto o paradigma actual de qualidade de vida se basear em adquirir constantemente produtos caros, de marca, os modelos tecnológicos mais recentes e mais dispendiosos, nada se alterará de facto.

É necessário que imediatamente se fomente o consumo interno, mas um consumo consciente e de pequena escala, sério, reflectido, ecológico. É fundamental não desanimar nem ceder aos sucessivos e repetidos discursos da comunicação social em que a temática actual é só e apenas uma: desestimular o prazer de viver. Tudo está em sintonia, as notícias sucessivas e deprimentes, a sociedade do espectáculo negro, desinteressante, aculturado.

E para quem acredita no Estado, é fundamental que se exija transparência política, justiça tributária, justa e equitativa. Uma medida ao alcance de qualquer cidadão é a participação no orçamento participativo, no qual o dinheiro autárquico, que é como quem diz, o nosso dinheiro, é decidido em prol do desejo votado pelos próprios cidadãos.

É necessário um abandono progressivo dos shoppings e promover o comércio tradicional. Compro em mercearias e em nada me sinto prejudicada com os preços proibitivos praticados pelas grandes superfícies e supermercados.

São necessários menos carros e mais utilização dos transportes públicos, mais bicicletas e menos fumo. Menos computadores e mais livros. Menos passeios em locais fechados e mais tempo em família em jardins que, invariavelmente, se encontram sempre desertos.

É preciso não desanimar, encontrar soluções, alternativas ao alcance e à medida de cada cidadão. Saber quem ao nosso lado vive com fome e partilhar, com um sorriso, uma história, sopa e pão e diminuir assim também a fome de solidão em que tantos se escondem.

É fundamental voltar à terra, plantá-la, adormecer ao sol, quer seja em pequena escala, nos quintais, em parcelas partilhadas ou num único vaso apenas.

É necessário apoiar projectos comunitários, a ocupação útil dos espaços abandonados, dar vida aos bairros, às aldeias desertas e devolver efectivamente o país aos seus habitantes.

São necessárias acções directas e imediatas. É necessário e fundamental que cada um seja o político de si próprio porque só desta forma cada um conseguirá viver com a consciência tranquila e a vida terá verdadeiramente uma única cor, a da liberdade.

  1. Gi Pinto via Facebook says:

    Pelo que li, deves ter tido e tens uma vida muito difícil, menina!! Tens toda a razão, toda a gente dá palpites, inclusivé tu.

  2. Bruno says:

    Diz que aos 20 anos visitou Varanasi, uma viagem que para a grande maioria dos Portugueses que lutam diariamente para conseguir colocar comer na mesa para os seus filhos nem em sonhos conseguiria fazer… Diz que acha mal as manifestações que as mesmas não resultam em nada, no entanto não vi nenhuma alterativa às mesmas no texto que escreveu, apenas as palavras de uma menina mimada que sempre teve tudo o que queria e precisava na vida sem grandes sacrifícios.

    Respeite as manifestações pois são um direito constitucional das pessoas…

  3. Povo says:

    O texto é bonito, está até bem escrito, mas não aquece nem arrefece, muito pelo contrário… E agora tenho de ir, que tenho que regar o anturio.

  4. Rita Barroso says:

    Penso que muitos dos que se vão manifestar amanhã não pensam nas ultimas técnologias mas sim se o jantar de amanhã vai existir na mesa para eles e para os seus filhos…Palavras leva-as o vento, as atitudes e manifestações marcam uma posição…nada mais tenho a dizer porque seria vago e oco de sentido…

  5. João Rodrigues says:

    Incrível a pendência que este texto vos cria… É verdade que não só o Estado é perdulário. É quase obrigatório ir à manifestação mas de que servirá realmente? Para criar mais noticias e servir de manchetes nos jornais, para fortalecer a oposição com elementos mais credíveis, ou simples esteio de uma massa populacional com necessidade de catarse infrutífera.

  6. filipa says:

    Concordo em tudo com a Ana. Sair amanhã para a rua seria interessante se domingo as pessoas mantivessem a mesma energia colectiva. Seria importante se a manifestação se tornasse numa acção de dois, três, quatro dias, uma semana, um mês, até algo mudar concretamente. Mas para me manifestar por um dia, também não deixarei de ir trabalhar. Porque acho que me manifesto mais, há já muito tempo, de outras formas.

    Manifestarmo-nos não é só na rua, com cartazes e palavras de ordem. Manifesta-se toda a vida aquele que não baixa a cabeça ao que lhe é imposto injustamente só porque não há alternativa melhor. Manifesta-se quem não aceita um trabalho a recibos verdes porque tem direito a um contrato a sério e não aquele que sai para a rua empenhando um cartaz que diz “não aos recibos verdes” mas depois aceita à primeira uma proposta de trabalho nessa condição e se justifica dizendo “se não aceitasse eu, outro aceitaria em meu lugar”. Manifesta-se o licenciado, mestrado, doutorado que não aceita um trabalho por 600€ por mês porque tem noção de que aquilo que sabe é mais valioso do que isso, mais do que se manifesta aquele que se queixa diariamente que o patrão lhe paga mal mas mesmo assim aceita todos os meses o que lhe dão.

    Sei que muitos dirão “Sim Filipa, também tu deves ter as costas quentes para poderes ter recusado um trabalho por 600€ a recibos verdes, é porque não precisavas!”. Compreenderei. Mas a verdade é que é esse medo de enfrentar quem manda, quem pode, é esse receio, esse baixar a cabeça, que nos trouxe ao ponto em que estamos. É a lei de qualquer mercado. Quem vende por menos abre caminho para a perda de valor do produto. E neste caso o produto somos nós, cidadãos, que perdemos a noção do nosso valor e nos vendemos por trocos porque, afinal, se não nos vendermos nós virá logo outro a seguir vender-se mais barato. Perdemos a ambição e a autoconfiança. E não é numa manifestação que vamos reavê-las. Primeiro temos que aceitar que as perdemos, voltar a ser ambiciosos e confiantes, a respeitarmo-nos e depois sim, sairmos de casa para reivindicar.

  7. Liliana says:

    “Se me tiram uma percentagem nos ganhos e me aumentam uma nos impostos, não vou gritar para a rua num acto que em nada fará mudar esses valores” – Diga isso a um pai ou uma mãe que passará a contar com um salário líquido inferior a 400€. Quem lhe disse que as manifestações não dão resultado? Pode nem sempre dar o resultado desejado, mas algum impacto têm sempre. Olhe, já agora, porque é que não deixa um dos seus 3 empregos e dá lugar a outra pessoa? Assim ajudava a baixar a taxa de desemprego! Tanta demagogia sobre materialismo e afinal precisa de 3 empregos? Não será ambição a mais?

  8. Liliana says:

    Como é possível mostrar maior “respeito” por um indivíduo que inicia uma greve de fome em troca de um emprego e que acabou por consegui-lo por mera pena, sem passar por um processo de selecção justo (porque provavelmente foram preteridas pessoas mais qualificadas para o cargo), e quase que desrespeitar um direito constitucional que nos assiste, que é o direito à manifestação? Enfim…

  9. Liliana says:

    “Quanto mais me calcam e oprimem mais vontade me dá para lutar e agir” – e qual é sua forma de luta? Desdobrar-se entre 3 empregos? “Vou procurar outro caminho, outra solução” parece que descobriu o Santo Graal, vá lá, não seja egoísta, quando descobrir esse outro caminho e essa outra solução, parti-lhe connosco!

  10. Carlos says:

    Cara Ana, as suas palavras tem tanto de bonito como de oco! É impressionante a sua capacidade de produzir textos enormes sem qualquer conteúdo ou ideias próprias! Já percebemos que consegue debitar os salmos do bem pensar, agora veja lá se cresce um bocado de sentido próprio e prático! De clichês estamos todos fartos!

  11. Olá Ana cancela,
    Concordo com quase tudo o que aqui é dito, o que aliás subscrevo: acho que há consumismo a mais e esta é uma boal altura para voltar ao básico. A questão é que é há muita gente que já vive no campo e tem essa relação com a terra e que não tem luxos. Estes vão passar a viver (ainda)com menos.Existem pessoas octogenárias que vivem na rua sem condições e pessoas que, com a nossa idade, andam “ao lixo”. É por estas pessoas que também devemos lutar. Por nós também. Eu não luto por querer ter um novo iphone. Eu quero condições dignas e por isso não me posso calar! :) Quero ter trabalho! quero ter uma perspectiva de futuro que não esteja ameaçada por juros de 17,5 à Alemanha. Não quero um futuro hipotecado!
    Por isso acredito em ir a manifestações, acredito neste direito de fazer ouvir a nossa voz e o nosso descontentamento. É claro que no Domingo as coisas vão estar iguais – as mudanças são graduais, assim comprova a história…Mas façamos nós a nossa estória e mostremos a nossa indignação enquanto tivermos força.
    E é por isto que irei amanhã, porque não me quero calar:) De resto concordo com tudo :)
    Só mais uma coisa, Ana, também já estive em varanasi e também nestas alturas me recordo do do sorriso rasgado que tinham as pessoas, muitas vezes com apenas o quadrado de terra onde se sentavam para pedir e deitavam para dormir – é, sem dúvida, uma lição de humildade…

  12. Sandra Bastos says:

    Esta senhora esquece alguns pequenos pormenores que fazem toda a diferença na vida de muita gente: A LIBERDADE de manifestação e de opinião foi um direito conquistado, após anos de autêntico terror para muitos, ainda que eu pense que a verdadeira manifestação que importa é na hora de fazer a cruz (infelizmente, em 38 ano de democracia, a cruz apenas tem contemplado 2 opções, quando há mais); em segundo lugar, a senhora tem 3 trabalhos… trabalha muito, portanto, mas há milhares de pessoas que não têm direito nem sequer a um trabalho, por mais que procurem… se calhar porque há alguns/que acumulam reformas com empregos e outras coisitas mais… Antes de falar, tente perceber bem o que se passa à sua volta…
    Tenho 43 anos, 2 licenciaturas, dois filhos para criar, contas para pagar, e um currículo de 19 anos no ensino… agora fiquei desempregada… quem me dará oportunidade noutro emprego… você?

  13. José Nogueira says:

    Com os rendimentos da maioria esmagadora dos portugueses a baixarem brutalmente, o desemprego a aumentar descontroladamente e os preços dos bens e serviços essenciais a manterem-se ao nível dos países europeus mais ricos, o que é que Ana pensa que vai acontecer, mais tarde ou mais cedo?No próximo texto que escrever(uma vez que parece ser uma Iluminada) dê-nos conselhos práticos “como vencer a crise”. Nós, os indigentes, distituidos, desempregados, reformados desprotegidos,sem abrigo, doentes crónicos, toxicodependentes, alcoólicos, gostaríamos muito de ter a Sua ajuda. Amém.

  14. Gabriela Poças via Facebook says:

    não vi debate nenhum. Só considerações oportunas do quanto este texto é blasé e constrangedor.

  15. Isa says:

    Ó Ana Cancela, não estás a ser muito coerente, não foste tu muito entusiesmada e cheia de fervor à manifesteção de 12 de março contra o Sócrates, então qual é a diferença? Os teus valores não eram os mesmos? E a ES.CO.LA também é fogo de vista? Ou acordaste num dia mau e os escritos sairam-te mal? Seja como for, não podes falar às pessoas num tom tão condescendente.
    Estás-te a ter em demasiada boa conta.

  16. Filomena says:

    Bem, depois de tanto blá blá, só me apraz dizer que, enquanto houver gente com 3 empregos, haverá sempre quem não tenha nenhum. Disse!

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