21 Mar 2014, 17:58

Texto de Suzana Faro

Memória

Viagem ao centro do Porto

Era a algazarra de sempre, o movimento contínuo, os passos acelerados das gentes, o deslizar lento dos carros, o pára-arranca matinal. Na rua que se abria para Sá da Bandeira, logo após o Café Imperial, o percurso era já pedonal, deixando para trás a Avenida.

Imagem de perfil de Suzana Faro

Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

Café Imperial

O Café Imperial, na praça da Liberdade.

Circulavam as pessoas pelo corredor central do empedrado preto e branco do pavimento em calçada portuguesa (decoração que partilhou com muitos dos passeios do centro da cidade ao longo do século XX, mas de que hoje constitui um dos poucos exemplares), por entre os enormes quadros de molduras douradas, imagens repetidas em vários tamanhos, substituindo-se, do lado direito, às paredes que surgiam apenas para dar acesso às portas estreitas dos edifícios. Sentados em pequenos bancos, na frente, os vendedores aguardavam pacientemente a atenção dos transeuntes para as suas galerias a céu aberto, entre a lágrima cuidadosamente deslizando na cara triste do menino, o passo esvoaçante das bailarinas e as múltiplas naturezas mortas.

Ainda bem próximo da Avenida, abria-se o corredor de cadeiras alinhadas em estrado elevado onde sentavam cavalheiros de fato escuro, uns lendo o jornal, outros à conversa, enquanto a poeira acumulada dos caminhos antes percorridos se metamorfoseava agora num brilho espelhado, recuperado no couro negro dos sapatos que o gesto preciso das mãos escurecidas do engraxador, aninhado na sua frente, garantia. Falavam uns do tempo, outros do mundo, da vida que assim é e da que assim será. Comentavam o futebol, os gostos e desgostos dos seus clubes, entre paixões aguerridas e desencantos. Outros, mais silenciosos, mergulhavam nas páginas largas do jornal do dia, pé esticado na frente pousado sobre o suporte de ferro, aguardando o resultado mas ignorando o processo. E o engraxador, costas curvadas sobre os sapatos de uns e de outros, sentado no banco estreito da caixa de madeira onde guardava a mestria de anos, conversando com uns, indiferente à indiferença dos outros, ia polindo os últimos vestígios dos trajetos da cidade, dando brilho às histórias de quotidianos que se construíam nos caminhos e se cruzavam agora com outras histórias que eram suas também.

Do outro lado da rua, no nr. 11, era o Café Embaixador, abrindo-se em dois pisos, paredes envidraçadas sobre a sala ampla de decoração simples, o nome afirmado no néon azul sobre a fachada, pessoas entrando e saindo a toda a hora, jornais e revistas penduradas junto à porta, empregados circulando apressadamente por entre as mesas, distribuindo cafés. Inaugurado em 1959, o Embaixador tomava o espaço antes ocupado pelo Café Central desde finais do século XIX.

Ouvia-se ainda a vida da avenida dos Aliados e já se adivinhava o movimento da rua Sá da Bandeira. Do lado esquerdo, a travessa dos Congregados abria-se para o desconhecido, misteriosa, entre edifícios altos que a rua estreita apenas deixava adivinhar. Fora no passado um ponto de encontro de homens da Bolsa, espaço de negócios e transações, num movimento contínuo que, juntamente com a concentração de instituições bancárias logo ao lado, lhe assegurava o bater do coração. Na esquina, já chegados a Sá da Bandeira, o edifício do Banco Borges & Irmão, do lado esquerdo, adivinhando-se a Brasileira, café emblemático da cidade fundado em 1903.

Assim era a rua Sampaio Bruno. Veio tomar o lugar da travessa de Sá da Bandeira, aberta em terrenos dos Padres Congregados após a extinção das Ordens Religiosas imposta pelo recém triunfante regime liberal e a consequente nacionalização dos seus bens, em 1836. O nome tomou-o de um eminente pensador português, escritor republicano e anticlerical – José Pereira de Sampaio (1857 – 1915). Sampaio Bruno foi o nome literário que adotou em homenagem ao teólogo e escritor da renascença italiana Giordano Bruno. Mas dele aproximou-se não só pelo nome como pelo percurso: condenado este à fogueira pela inquisição por questionar os dogmas da igreja; exilado aquele pelo envolvimento nos conflitos do 31 de janeiro.

Indiferente, porém, ao destino de Sampaio Bruno, seguia cada um o seu próprio destino, atravessando em passo decidido a rua que dele herdara o nome, cortando caminho da Avenida para Sá da Bandeira.

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.