8 Fev 2014, 11:31

Texto de César Santos Silva

Memória

Do Ultimatum ao 5 de Outubro

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O Ultimatum, o 31 de janeiro, o 5 de outubro são momentos-chave do final da monarquia e da passagem para o regime republicano, aqui recordados com algumas ligações obrigatórias à cidade Invicta que foi tendo um papel de protagonista na escrita da história do país.

Imagem de perfil de César Santos Silva

Nasceu na Senhora da Hora em 1962. Bacharel em História, é formador, professor de História do Porto, Portugal e Contemporânea do Mundo em várias universidades seniores. Investigador de temas relacionados com a História do Porto, é colaborador pontual dos “Serões da Bonjoia”, conferencista habitual da Biblioteca Municipal Almeida Garrett e da Fundação Inatel. É autor dos livros “Associação Nun' Álvares de Campanhã – Subsídios para a sua istória História” (2010), “Toponímia Feminina Portuense” (2012), “Passeios pelo Porto” (volumes I e II, 2012 e 2013), “Toponímia de Ramalde – História das Ruas da Freguesia” (2013) e "Na Rota dos Judeus no Porto" (2014). Colabora com a AMAI (Associação para a Medicina, as Artes e as Ideias) e a Mercearia das Flores, orientando visitas guiadas ao Porto.

ULTIMATUM

O reinado de D. Carlos é hoje associado a duas datas particularmente infelizes: o Ultimato inglês e o regicídio.·

Quando o Rei D. Luís I morreu em Cascais, em Outubro de 1889, D. Carlos sucedeu-lhe no trono. Tinha a idade de 26 anos. Passados três meses, o novo rei teve de enfrentar a crise que adveio do chamado Ultimatum britânico. Em 12 de Janeiro de 1890 José Luciano de Castro recebe uma nota de Salisbury no qual este lhe comunicava que ou Portugal desistia da colocação de homens da zona do Chire e das zonas ocupadas pelos macololos e os machonas ou o representante diplomático inglês deixaria Lisboa com as consequências que dai advinham, resultado de um conflito de interesses pela posse de territórios em África.

A esquadra inglesa fundeada em Gibraltar mostrava aos mais desatentos a maior potencia do mundo na época. O governo cedeu e uma verdadeira histeria colectiva varreu o pais. A casa do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, Barros Gomes foi apedrejada. Os súbditos ingleses eram insultados. Palmela devolveu as condecorações dadas pelos ingleses. O pasteleiro que fazia os “ christies” bolo inglês muito apreciado em sinal de revolta deixa de os fabricar. O curioso é que estes territórios ficavam tão longe que ninguém sabia muito bem onde eram mas que de facto impedia a ligação de Angola a Moçambique isso era claro, e chocava com os interesses inglese consubstanciados no Imperialista Cecil Rhodes.

Esta questão arrastava-se desde a Conferência de Berlim (1884) que, reunida para tratar das questões coloniais em África, determinou o princípio da Ocupação efectiva dos territórios como factor determinante para a reclamação de soberania sobre os mesmos. Não esquecer ainda o facto de a Alemanha estar a surgir na Europa como uma grande potencia emergente e que via a África com uma possibilidade de ir buscar as matérias primas de que precisava para alimentara a sua revolução industrial.

Este incidente, devidamente empolado e distorcido pelos que contestavam o regime, originou uma crise política grave. Os partidos Regenerador e Progressista, que formavam o que hoje chamaríamos «arco governativo», revelaram grandes dificuldades para negociar um tratado com a Inglaterra que permitisse salvar as aspirações coloniais portuguesas. A isto juntou-se a crise financeira, que começava a tornar-se asfixiante, muito resultante dos empréstimos contraídos para financiar os investimentos e obras públicas executadas no reinado anterior (o célebre fontismo).

Para fazer face aos problemas financeiros e à grave crise originada pelo Ultimatum, e esgotadas por então as soluções oferecidas pelos partidos «rotativos» (O partido regenerador perdera o seu líder incontestado, Fontes Pereira de Melo, e encontrava-se numa crise de identidade, a braços com a liderança formal de António de Serpa Pimentel, e a disputa efectiva pelo poder entre Hintze Ribeiro e Lopo Vaz de Sampaio e Melo), D. Carlos optou pela formação de governos extra partidários, como os do General João Crisóstomo e, sobretudo, o governo de orientação progressista de José Dias Ferreira, que integrou de início Oliveira Martins na pasta das Finanças. Foram estes governos que, por entre altos e baixos, conduziram o País à estabilização desejada, e à imprescindível normalização das relações com a Inglaterra.

31 DE JANEIRO31 de Janeiro cartaz

Só devemos falar em “ Republicanismo a partir da década de 70 do século XIX. Tendo o seu primeiro deputado, Rodrigues de Freitas, eleito em 1878. Mas o que veio dar alento aos ideais da Republica foi o “ Ultimatum “ britânico que veio provocar uma humilhação nacional habilmente explorada pelos republicanos.

A 31 de Janeiro de 1891 o Porto foi abalado por uma revolta, a última do seu vasto e glorioso património revolucionário que 0 24-8 -1820 foi o seu expoente máximo. (tirando o episodio de 03 -02 -1927).

Se a causa próxima do movimento foi como todos são unânimes em o afirmar o “ Ultimatum” porque não foi Lisboa a liderar o processo militar? Esta é pertinente dado que foi nesta cidade onde se fez ouvir em maior tom a voz da indignação. Foi aqui em Lisboa que os Republicanos obtiveram os seus únicos deputados a seguir ao Ultimatum de 1890. No Porto e ainda para reforçar a tese acima exposta foi fundada a Liga Patriótica do Norte (com Antero de Quental) que redundou em fracasso absoluto, dissolvendo-se pouco depois de ter sido constituída, insucesso mais que previsível numa cidade que no dizer de Basílio Teles era uma feitoria inglesa. Estes tinham uma influência económica e social que lhe vinha de longe e lhe acarretava prestigio e influência.

João Chagas dizia na sua”História da Revolta do Porto “ que pela sua história e pelas suas superstições tinha que ser o Porto já que no dizer dele era o único centro a poder a liderar a revolta pela liberdade. João Chagas achava que Lisboa pelo facto de ser maior e mais heterogénea não tinha capacidade de liderar uma revolta 8 como se o Porto tivesse uma população monolitizada e opinião única (?). O curioso é que estas opiniões eram corroboradas por homens como Sampaio Bruno e Basílio Teles que escolhem a nossa cidade para aqui implementarem uma imprensa revolucionária e sede da revolução. Então se calhar é este espírito do Porto a chamar João Chagas e não a sua imprensa panfletária a escolher a cidade para seu centro irradiador de constestação.Oliveira Martins dizia que o Porto era a cidade revolucionário democrática por excelência. De todas as vezes que Portugal careceu de uma liderança forte para imprimir um novo rumo à vida do pais foi daqui que partiu esse mesmo impulso.

1820 A data da Revolução Liberal
1826 Proclamação das Carta Constitucional
1833/4 Expulsão de D.Miguel
1836 Revolução de Setembro
1846 Fim do Cabralismo

Ao lisonjear a cidade Oliveira Martins, numa atitude conservadora, dizia que as revoluções duradoiras eram aquelas que eram feitas de uma forma pacífica. Mas onde Oliveira Martins via contestação os Republicanos viam Revolução.

Logo após o Ultimatum Basílio Teles reunia-se no Porto para conspirar contra a Monarquia Constitucional. Outros dois elementos importantes vão ser Santos Cardoso, Alves da Veiga e Teófilo Braga.

Mas não é liquido que todos os republicanos portuenses apoiassem estes homens o que prova que mesmo na nossa cidade aparentemente as coisas não estariam maduras.

Mas se aqui as coisas não estavam maduras em Lisboa ainda pior, já que o PRP estava um bocado desacreditado e não havia nenhum punhado de homens românticos como no Porto para encerarem uma aventura militar. Mas o facto de a revolta ter sido republicana não quer dizer que tenha sido uma revolta do PRP. É nesta questão que tem que se ver o motivo da fracassada revolta. É o próprio PRP que através do seu directório vem de uma forma clara desautorizar a intentona classificando-a como uma provocação monárquica! (Conforme um artigo de Homem Cristo) Os republicanos do directório não só desautorizavam o golpe como tentavam desmobilizar todos aqueles que quisessem aderir.

Outra leitura que se pode fazer é que os membros da Maçonaria no Porto não participaram na intentona só participaram a nível emocional. Quando às 2 da manha os vários regimentos de cavalaria infantaria caçadores e guarda-fiscal começaram convergir para o Campo de S.Ovídio eram encabeçados pelo 10 da infantaria que executava a” A Portuguesa “. Arrombaram as portas do quartel e da varanda Alves da Veiga e proclama a Republica.

TOPONÍMIA DO 31 DE JANEIRO

Alguns nomes ligados à revolta portuenese inscritos na toponímia da cidade:  31 de Janeiro, Felizardo Lima, Rodrigues de Freitas, Elias Garcia, Jacinto Nunes, Alferes Malheiro, Aurélio Paz dos Reis, Capitão Leitão,
Tenente Coelho, Sargento Abílio, Aníbal Cunha, Actor Verdial, João Chagas, Basílio Teles, Sampaio Bruno, Alves da Veiga, Rodrigues de Freitas.

5 DE OUTUBRO

Nos dias 4 e 5 de Outubro de 1910 alguns militares da Marinha e do Exército iniciaram uma revolta nas guarnições de Lisboa, com o objectivo de derrubar a Monarquia. Juntamente com os militares estiveram a Carbonária e o as estruturas do PRP (Partido Republicano Português). Na tarde desse dia, José Relvas, em nome do Directório do PRP, proclamou a República à varanda da Câmara Municipal de Lisboa. No dia 6 o novo regime foi proclamado no Porto e, nos dias seguintes, no resto do país. Em Braga foi-o no dia 7, tendo tomado posse da Câmara o Dr. Manuel Monteiro.

A queda da Monarquia já era de esperar. Dois anos antes D. Carlos e D. Luíz Filipe haviam sido assassinados por activistas republicanos. O reinado de D. Manuel II tentou apaziguar a vida do país sem sucesso. Foi um reinado fraco e inexperiente. Apesar de o 5 de Outubro não ter sido uma verdadeira revolução popular, mas sobretudo um golpe de estado centrado em Lisboa, a nova situação acabou por ser aceite no país e poucos acreditaram na possibilidade de num regresso à Monarquia.

Seguiu-se um período de democracia republicana, caracterizado por forte instabilidade política, conflitos com a Igreja, mas também grandes progressos na educação pública. A chamada I República Portuguesa terminou em 1926, com o golpe de 28 de Maio, a que se seguiram muitos anos de ditadura.

Após o 5 de Outubro foi substituída a bandeira portuguesa. As cores verdes e vermelho significam, respectivamente, a esperança e o sangue dos heróis. A esfera armilar simboliza os Descobrimentos, os sete castelos representam os primeiros castelos conquistados por D. Afonso Henriques, as cinco quinas significam os cinco reis mouros vencidos por este Rei e, finalmente, os cinco pontos em cada uma as cinco chagas de Cristo. O hino A Portuguesa, composto por Alfredo Cecil tornou-se o hino nacional

Como nasceu o hino nacional

A Portuguesa foi composta imediatamente a seguir ao Ultimato inglês, sendo a música de Alfredo Keil (1850-1907) e a letra do poeta e historiador Henrique Lopes de Mendonça (1859-1931). Tendo começado por ser tocada num espectáculo de um dos teatros de Lisboa, A revista “A Torpeza”, levada à cena no mesmo ano ( 1890 ) e cujo título anunciava já a referência ao assunto que estava na ordem do dia, incluía no final do primeiro acto uma marcha cujos versos incitavam à revolta e cuja música, de fácil assimilação, era trauteada pelos espectadores após saírem do Teatro da Alegria, onde o espectáculo se realizava todas as noites.

A letra fora escrita por Lopes de Mendonça e a música por Alfredo Keil (1850-1907), compositor e pintor de ascendência alemã e alsaciana, que admitiu ter composto a marcha a partir de três referências musicais: “A Marselhesa”, o hino “Maria da Fonte” (inúmeras vezes entoado nas hostes liberais) e o fado, na sua opinião a forma musical mais adequada à expressão dum lamento colectivo.Tal foi o êxito d’ A Portuguesa que em breve era conhecida em todo o país e proíbida pelo governo de ser cantada em público.

A Portuguesa
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal.
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória.
Às armas! Às armas!
Sobre a terra e sobre o mar!
Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!
Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira
Portugal não pereceu!
Beija o teu solo jucundo
O oceano a rugir d’amor;
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!
Às armas! Às armas!
Sobre a terra e sobre o mar!
Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco d’uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios d’essa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.
Às armas! Às armas!
Sobre a terra e sobre o mar!
Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!

Memória

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