Imagens: Manuel de Sousa/PortoDesaparecido

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26 Set 2014, 11:35

Texto de Manuel de Sousa

Memória

Transportes coletivos no Porto

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A história dos transportes coletivos no Porto desde a década de 1870 até aos anos 2000. Fotografias que fazem jus à expressão “Uma imagem vale mais do que mil palavras”.

Imagem de perfil de Manuel de Sousa

Manuel de Sousa nasceu em Miragaia em 1965. Licenciado em Ciências Históricas, desenvolveu uma actividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing, sem nunca ter abandonado o seu interesse pela história da cidade do Porto. Procurando aliar a divulgação da história local com as redes sociais, no início de 2012 criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto.

Na década de 1870, surgiram no Porto duas empresas de transportes públicos, ambas fazendo uso dos “carros americanos”, carruagens puxadas por cavalos que circulavam sobre carris de ferro [foto 01].

A primeira dessas empresas foi a Companhia Carril Americano do Porto, com linhas ligando as zonas do Infante [foto 02] e do Carmo à Foz do Douro, seguindo ao longo do rio. Estas linhas seriam, pouco depois, estendidas até Matosinhos. A segunda foi a Companhia Carris de Ferro do Porto [foto 03], explorando linhas até Campanhã, o Bolhão e Aguardente (atual praça do Marquês de Pombal), assim como o serviço entre a praça de Carlos Alberto e Matosinhos, via rotunda da Boavista, Fonte da Moura e Foz do Douro. Até à rotunda da Boavista, o percurso era feito recorrendo aos habituais americanos. Mas, na estação da rotunda, os passageiros faziam transbordo para a “máquina”, um veículo que podemos considerar o primeiro “metro de superfície” do país. Tratava-se de uma pequena locomotiva a vapor, devidamente carroçada de forma a disfarçar o seu aspeto ferroviário, que puxava três ou quatro carruagens e circulava sobre carris pela via pública [foto 04]. A “máquina” partia da rotunda descendo a avenida da Boavista até à Fonte da Moura, onde infletia pela atual rua de Correia de Sá [foto 05] e seguia até à estação de Cadouços (atual largo do Capitão Pinheiro Torres de Meireles), na Foz do Douro. Daí prosseguia até ao castelo do Queijo pelas ruas do Túnel e de Gondarém, entrando em Matosinhos pela rua de Roberto Ivens.

Entretanto, em 1893, a Companhia Carril Americano do Porto foi adquirida pela Companhia Carris de Ferro do Porto e, em 12 de setembro de 1895, eletrifica a linha entre o Carmo e a Arrábida. Esta foi a primeira linha a tração elétrica a entrar ao serviço na Península Ibérica. Nos anos subsequentes, todas as linhas passam progressivamente a adotar este novo tipo de tração [foto 06].

Os elétricos [foto 07] expandem-se, acabando por substituir integralmente os meios de transportes anteriores, entretanto tornados obsoletos: os americanos, em 1904; a “máquina”, em 1914. Em meados do século XX a rede dos carros elétricos do Porto atinge o seu apogeu, com 38 linhas, 150 quilómetros de via e um parque de material circulante de 193 carros elétricos e 24 reboques, cobrindo toda a cidade [foto 08] e chegando a Leça da Palmeira, Ponte da Pedra, Ermesinde, Rio Tinto [foto 09], São Pedro da Cova [foto 10], Gondomar e Vila Nova de Gaia, pela ponte Luís I [foto 11].

Em 1946, a Companhia Carris de Ferro do Porto passou para a alçada da Câmara Municipal do Porto, adotando a designação Serviço de Transportes Coletivos do Porto (STCP), se bem que o nome popular de “Carris” persistiu durante décadas.

Em 1948, os STCP inauguravam a primeira carreira de autocarro da cidade do Porto: a carreira C que partia da avenida dos Aliados e tinha o seu término no Carvalhido. No mesmo ano foram também inauguradas novas carreiras: a linha D, para as Antas; a linha A, para a Foz; a linha E, para Paranhos. Estes primeiros autocarros eram da marca Daimler, com chassis provenientes da Inglaterra, carroçados na firma Dalfa, de Ovar. Tinham a particularidade de ter o volante “à inglesa”, ou seja, do lado direito do veículo. Inicialmente amarelos, em 1959 os autocarros foram pintados de verde [foto 12].

Em 1959 foram introduzidos os primeiros troleicarros, com o objetivo de substituir os carros elétricos na ponte Luís I, onde circulavam desde 1905. A justificação dada foi a de que a passagem dos elétricos estava a causar a corrosão eletrolítica da ponte metálica. A ponte Luís I passou a ser atravessada pelos tróleis das linhas 31 (que funcionou até 1978), 32, 33 e 36 (que persistiram até 1993) [foto 13].

Estes foram os primeiros reveses dos elétricos. Muitos outros se seguiriam, com os tróleis e os autocarros a dominarem [foto 14]. Em 1966, a rede de elétricos foi reduzida para 72 quilómetros de via, percorrida por 184 elétricos; em 1968, o serviço de elétricos passou para 38 quilómetros de via e 127 veículos em circulação; em 1978, a rede dispunha de 21 quilómetros de via e 84 veículos; em 1988, apenas 18 quilómetros de linha e 50 veículos. Nas décadas de 1970 e 1980, dezenas de carros elétricos foram vendidos para diversos países onde, muitos deles, continuam a operar até aos nossos dias. No Porto, persistem atualmente três linhas – 1, 18 e 22 –, acima de tudo com intuitos turísticos.

Menos sorte tiveram os troleicarros, dos quais nenhum sobrevive em funcionamento entre nós. Apesar do seu sucesso inicial, a partir da década de 1980, o elevado tráfego automóvel começou a colocar sérias dificuldades operacionais aos tróleis, tendo a rede acabado por ser totalmente encerrada no final de 1997. Em 2000 a quase totalidade da frota de tróleis do Porto foi vendida para o Cazaquistão, onde continua a circular na cidade de Almaty. Para constituição de um futuro Museu do Troleicarro do Porto, foi preservado um exemplar de cada um dos modelos que circularam na cidade.

Manuel de Sousa escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

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