Image de Terça-feira. Levava um livro para casa.

A zona da rua Júlio Dinis onde ficava a livraria Estudo.

2 Fev 2014, 14:42

Texto de Suzana Faro

Memória

Terça-feira. Levava um livro para casa.

Eram como janelas, estantes após estantes, prateleiras e prateleiras de lombadas de todas as cores, letras e nomes.

Imagem de perfil de Suzana Faro

Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

"A room of one’s own"

E passava-me para a mão um exemplar, depois outro – olha este, lês em inglês, vais gostar. – A room of one’s own, Virginia Woolf, lia-se na capa.

Eram mesas compridas, umas em frente a outras, capas diferentes, vários tamanhos, partilhas diversas. Era um mundo sem fim de histórias, de saberes, de desafios, de descobertas.

Terça-feira. Era um porto de abrigo.

Vinha do Carolina – o liceu Carolina Michaelis –, na Ramada Alta. Iniciava então a descida de Júlio Dinis, logo após a rotunda, em direção à praça da Galiza.

A rua Júlio Dinis foi desde sempre uma artéria pontuada por espaços de encontro das gentes da cidade. A Petúlia, desde 1972, aliava, então como hoje, a uma pequena mercearia fina à entrada, uma confeitaria no interior, emoldurada pelo espelho largo na parede, ao fundo, por trás do balcão, refletindo as mesas de madeira, pequenas, quadradas, rodeadas por cadeiras em couro vermelho. Ao fundo da rua, junto à Escola Gomes Teixeira, era o Manu, sorriso aberto na face redonda coroada de cabelos brancos, segurando ao pescoço um tabuleiro repleto de “chupas” de açúcar caramelizado de todas as cores, colorindo os dias dos mais novos. À esquerda, ali mesmo ao dobrar da esquina depois da rotunda, os tradicionais cafés Orfeu e Orfeuzinho, espaços de conversas, debates e reflexões onde pulsava a vida cultural do Porto.

À direita, mesmo em frente a estes, no número 927 da rua Júlio Dinis, abria-se a montra envidraçada para a sala comprida da Estudo, o espaço preenchido de novidades e velhas propostas, as caras familiares e as vozes de sempre ecoando num sussurro adivinhado do interior. Ali se instalou a 25 de março de 1972. Ali se manteve até cerca de 1986. Um mundo sem fim de histórias, de saberes, de desafios, de descobertas.

Terça-feira. Entrava.

Misturavam-se os livros e as pessoas, uns conversando, outros folheando livros, outros pesquisando com o olhar. Uns folheando livros enquanto conversavam, outros conversando enquanto pesquisavam com o olhar. Uns deambulando por entre os livros sem destino. Outros destinados a deambular por entre os livros. Todos se demoravam, porque era assim mesmo, sem tempo para pressas nem espaço para querer ser de outro modo.

Ponto de encontro de histórias que se liam nas folhas de cada livro que pegavam nas mãos, outras tantas cumplicidades nas lombadas alinhadas nas estantes, ou imaginadas nas capas acumuladas nas longas mesas.

Terça-feira. O abraço de sempre.

Escolhe um livro – dizia-me. E passava-me para a mão um exemplar, depois outro – olha este, lês em inglês, vais gostar. – A room of one’s own, Virginia Woolf, lia-se na capa. Folheava um após outro, depois outro, e outro mais – este é um clássico! Vinhas da Ira, John Steinbeck. – e pousava-me na mão outro ainda. Que tal este? Devias ler este. Mas não eram livros, eram portas que se abriam. Vá, escolhe um livro. Levas um só. Segurava nas mãos uns e outros – a opção foi sempre difícil. Enchiam-se de luz os olhos a cada terça-feira, um sorriso tomava a face, escolhia sem certeza. Este!. E o senhor Almiro tomava-o nas mãos, colocava-o num saco que o pai me confiava depois.

Terça-feira. Levava um livro para casa.

Assim achava que seria sempre. E por isso, talvez, a memória da rua Júlio Dinis seja a da Livraria Estudo e a da Livraria Estudo seja tão só a magia dos títulos, a imagem das capas nas mesas, as lombadas nas estantes, as vozes sussurradas, as caras familiares, a ternura das palavras – Escolhe um livro. Vais gostar deste! –, o folhear de cada terça-feira.

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

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