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11 Fev 2014, 13:19

Texto de Suzana Faro

Memória

O tio fazia cinemas!

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Era estranho, sim, contudo familiar. E de tão familiar nem tão pouco nos ocorria questionar. Era assim desde sempre e o pouco passado que tínhamos ainda, fazia acreditar que assim continuaria a ser.

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Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

O Tio fazia cinemas!

Ficava a Tia lá em casa para tomar um chá (sete chávenas, a última sem açúcar) e dois dedos de conversa. Saía o Tio, tinha cinemas para fazer, hoje um, amanhã outro, na semana seguinte outro ainda, e assim era ao longo dos meses, dos anos, da vida. E deste modo foram entrando no quotidiano o Águia D’Ouro, o Batalha, o Trindade, o Coliseu, o Júlio Diniz… e outras salas de cinema mais afastadas, que o ficaram também nos registos que guardamos de então.

No nosso imaginário, “fazer cinemas” era assim como um golpe de magia que o Tio tinha por missão. Imaginávamo-lo a entrar no emblemático Águia D’Ouro algum tempo antes da hora marcada, abraçando grandes latas redondas de bobines que continham fitas castanhas meticulosamente enroladas, colocadas depois em máquinas complexas que as metamorfoseavam, alinhando-as num feixe de luz que só na enorme tela se revelava: vidas partilhadas com outras vidas, que tomavam conta da sala quando as luzes se apagavam, fitas que se rebelavam no escuro para logo se recolherem quando de novo a sala clareava.

E absorvíamos a memória dos outros como se nossa fosse, ouvíamos relatos de filmes que nem sabíamos existirem, mas que a partir de então eram nossos também. Era o longuíssimo “Guerra e Paz” no Coliseu, do soviético Serguei Bondarchuk. “Uma História Imortal” de Orson Welles, no Júlio Diniz…

A realidade, contudo, era outra. Espalhadas um pouco por toda a parte, mas tantas vezes sem capacidade para cativar grandes audiências, as salas de cinema alugavam às distribuidoras os filmes para exibição mediante um pagamento percentual do apuro. O cálculo do valor a cobrar a cada sala era efetuado pelo movimento da bilheteira em cada sessão ou média de sessões, controlado pelo representante da respetiva distribuidora. Entre tolerâncias e cumplicidades, as contas eram feitas por homens como o Tio, acumulando várias representações, fazendo nos cinemas, regularmente, o acompanhamento da exibição dos filmes.

Hoje um, amanhã outro: os cinemas do Porto “fazia-os” o Tio! Mais familiares uns do que outros, guardamos bem presente na memória a Praça da Batalha.

No monumental edifício de esquina impunha-se, desde 1947, o Batalha. Era então apenas um invólucro branco, imponente, palco mais dos afetos do que da experiência. Quando a ele voltamos, anos mais tarde, em sessões várias dos ciclos de cinema apresentados pelo Cineclube do Porto, sentíamos na verdade um carinhoso retorno.

Herdeiro do Salão High-Life de António Neves e Edmond Pascaud, fixou-se em 1908 na Praça que em 1913 lhe veio a dar o nome. Era até então o Novo Salão High-Life, depois de um percurso iniciado na Rotunda da Boavista em 1906, passando pelo Jardim da Cordoaria entre 1906 e 1908. Mas só em 1947 é inaugurado o atual edifício, quando pontuavam já na cidade várias outras salas dando resposta às exigências tecnológicas que o cinema sonoro (desenvolvido a partir dos anos 20) acarretava.

Já o Águia D’Ouro, encaixado entre prédios estreitos, era a ampla e elegante fachada que se erguia acima do painel avançado da entrada, as janelas recortadas em molduras finamente decoradas, coroada pelo néon onde se lia “Cine Águia”. Abrira as portas como café em 1839, a que veio associar o cinema em 1908, com a novidade do “cronomegaphone”, um aperfeiçoamento do cinematógrafo falante. Mas apenas em 1930 o Águia inauguraria o cinema sonoro, sendo à época uma das melhores salas da cidade.

Histórias escritas pelo tempo, transformadas noutras histórias que também o tempo ditou. Mas nas cumplicidades da memória, o Batalha e o Águia D’Ouro são ainda cinemas que o Tio fazia, hoje um, amanhã outro, depois outro ainda.

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

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