Image de O T

20 Jan 2014, 23:05

Texto de Suzana Faro

Memória

O T

À entrada no Porto ia já à pinha! Somavam-se aos que vinham de Lavadores, Alumiara, Quatro Caminhos e Candal na melancolia silenciosa da manhã, as vozes intensas das gentes da Afurada.

Imagem de perfil de Suzana Faro

Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

Teófilo Rego, s/d (década de 1960)/ Arquivo Fotográfico Museu do Carro Eléctrico

Foto: Teófilo Rego, s/d (década de 1960)/ Arquivo Fotográfico Museu do Carro Eléctrico

É chegar para trás, que cabem todos, impunha o trinca, enquanto passava por entre os volumes compactados, mescla de pastas e carteiras, pessoas, baldes e canastras de peixe, picando bilhetes com cores tão diversas quanto os destinos. P’ra trás mija a burra! ouvia-se, e lá se apertava mais um pouco para caber aquele último passageiro. Era um T de todos, verde no exterior, portas e janelas emolduradas por um apontamento bege, que se fazia anunciar pelo ruidoso motor antes mesmo do respirar fundo de abertura das portas a cada dedo estendido na sua frente.

Era assim todas as manhãs. Ou assim é a memória dessas manhãs. Conheciam-se as caras mas perdia-se a rota aos pensamentos, alheados do exíguo espaço que partilhavam, de partida para outras paragens.

As caras tinham nomes, ignorando-se porém os seus próprios nomes. Era assim uma espécie de conversa surda, um tu-cá-tu-lá entre desconhecidos que o eram menos apenas porque faziam juntos a viagem.

E passava-se a Ponte da Arrábida rumo à cidade. Os humores do Douro, que se estendia separando as duas margens, confundiam-se com os humores dos próprios viajantes, mais extrovertido aquele, introspetivos estes.

Acolhiam a ponte, a sul, as escarpas do Monte Cavaco e as ruínas de uma outra vida, onde laborou desde 1824 uma das antigas fábricas de produção cerâmica de louça de Gaia, produzindo para o Reino e para o Brasil, e que manteve atividade até meados do século XX, altura em que a construção da Ponte da Arrábida (inaugurada a 22 de junho de 1963) lhe veio ditar diferente destino.

Na margem norte eram terras baldias que desciam encrespadas para o rio, onde então cresciam verdes selvagens e se destacavam pedras precipitando-se sobre a margem.

Para uns, abria-se a cidade Douro acima. Adivinhavam-se, sem se ver, os rendilhados do ferro das velhas pontes Luís I e Maria Pia, também elas portas do Porto. Era a imagem do desconhecido, mais do que o que aos olhos era dado a ver, que traçava o perfil da cidade, como se assim fosse e assim tivesse sido sempre, ignorando ainda a sua vontade, mas conhecendo o bater do seu pulso.

Para outros, mais afortunados talvez, o Douro levava para o mar. Era também a cidade que se abria mas a outros mundos, um coração que pulsava em cada viagem, uma vocação viajante com que o porto se fez Porto.

Memórias que se perdiam no tempo, que se esqueciam para depois se redescobrir em cada descoberta.
600 m, pouco mais, e o T alcançava o Porto.

A cidade era ainda feita de percursos traçados, sem aquela liberdade com que a entendemos hoje. O Porto a que a Arrábida abria a porta estendia-se pelo trilho no cimo das escarpas rumo ao Campo Alegre, com paragem obrigatória na Junta de Massarelos onde ficavam os primeiros passageiros, rapidamente absorvidos pelas ruas que se abriam em redor.

Depois a Galiza e a Rosália, praça que imortaliza Rosália de Castro, de quem desconhecíamos então o tempo, a origem ou mesmo as palavras. Mas era ali mesmo e sem que o soubéssemos ainda, a nossa paragem, Mis pensamientos son vagabundos, mi imaginación errante y mi alma sólo se satisface de impresiones.

Envolvida pelas árvores grandes do pequeno jardim, Rosália acompanhava atenta os passos dos viajantes que lhe confiava o T, agora apeados. Mais céleres e barulhentos os grupos dos pequenos que entravam na Gomes Teixeira, decididos os mais adultos que rumavam ao Infante, mais ritmados os que dali partiam para outras paragens. Mas desconhecíamos as outras paragens. O nosso porto era ainda esse apontamento para onde nos levava o T, que depois seguia viagem para parte incerta, entranhando-se nesse outro Porto.

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.