Image de Jardim da Cordoaria

O jardim nos dias de hoje. Fotos: Arq/André Soares

4 Mai 2015, 17:21

Texto de Suzana Faro

Memória

Jardim da Cordoaria

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Cordoaria lhe chamaram. E assim ficou. Fora parte do Campo do Olival, que albergou, ao longo de cerca 200 anos, o trabalho dos cordoeiros, feiras diárias e o movimento das gentes da cidade.

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Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

cordoaria ASVelhas árvores com ramos de um cinza intenso rompiam o chão, dominando o cenário; de quando em quando, pequenos frisos de flores vermelhas debruavam os canteiros; mais ali era um breve pormenor lilás, outro amarelo. O que mais impressionava era a sua decidida afirmação ao brotar da terra, assim tão frágeis, assim tão vulneráveis à brisa suave que se lhes vinha juntar. Até que as primeiras chuvas de outono lhes inibissem a exuberância. Então desapareciam timidamente para de novo regressar com o canto alegre dos próximos raios quentes de sol. Era certo que regressariam. Despontariam na altiva dignidade e contagiante alegria de quem respira a liberdade. A terra que as fazia brotar voltaria, então, a pintar-se de cor.

Imponentes, as árvores protegiam-nas com o seu olhar atento, com essa experiência de quem vê fazer-se o mundo a seus pés, ano após ano, corajosamente desafiando os ventos e as chuvas, abraçando o sol com seus troncos fortes, tingindo-se de cores diversas, dançando na melodia do sopro calmo da tarde. Ali permaneciam.

Caminhavam, lentas, as pessoas pelos carreiros de terra batida, timidamente contagiados já pelo verde dos relvados. Não se ouvia o que diziam. Estariam, apesar de tudo, demasiado longe mas ao mesmo tempo tão próximas que quase parecia escutar-se a terra que se soltava por debaixo dos passos dos seus pés.

Descansavam outras nos ripados de madeira dos bancos de sempre, entre as raízes que se soltavam da terra – essas raízes que pareciam suas também – de onde olhavam o jardim e os seus caminhos. Pouco mais. A malha de arvoredo apenas deixava adivinhar a cidade para lá dela. Um pequeno bosque, sombrio, abraçando o viajante.

SONY DSCCordoaria lhe chamaram. E assim ficou. Fora parte do Campo do Olival (nome assegurado pelas inúmeras oliveiras aí existentes até 1611, data em que o rei Filipe II as mandou arrancar), que albergou, ao longo de cerca 200 anos, o trabalho dos cordoeiros, feiras diárias e o movimento das gentes da cidade. Assim foi até que, na segunda metade de oitocentos (corriam os anos de 1865/1866), foi transformado com projeto de Emile David, paisagista alemão que lhe doou um tom romântico bem ao gosto de então. Alinharam-se grandes alamedas de árvores majestosas – tílias, plátanos, carvalhos – com bancos de madeira. Plantas exóticas emolduraram um lago, ao centro. Povoaram-no estátuas inspiradas, histórias e lendas. Um coreto em ferro fundido rematou o conjunto. Recebe o nome do escritor e jornalista João Chagas em 1924, mas é a Cordoaria que lhe garante, mesmo assim, o lugar no coração do Porto.

Soma-se a história às histórias que dele se contam, como a do velho olmo – Ulmus Campestris – que, decepado pela tempestade ocorrida a 10 de novembro de 1963, desde logo a imaginação popular associou a Árvore da Forca e, com ela, narrou histórias de trágicos enforcamentos. Acabaria por desaparecer em 1986, permanecendo contudo na memória da cidade.

Sem vedação que lhe condicionasse a planta triangular ou limitasse os percursos retilíneos no seu interior, o Jardim permitia adivinhar a cidade para além de si, ao mesmo tempo que chamava o transeunte para o seu interior.

Dali, era um outro modo de sentir a cidade, uma outra forma de a olhar. E quando de novo se voltava ao empedrado da rua, era essa cidade que vinha ao nosso encontro. As caras de sempre em cada dia diferente, os caminhos que trilhavam repetidamente. E sentíamo-nos parte dessa mesma cidade. Encontrados em cada rua, em cada casa, em cada pedra da calçada, identificando cada canto que o sol iluminava ou os trilhos escuros da sua sombra.

Memória

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