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Foto: Dário Passos

25 Jan 2014, 18:54

Texto de Suzana Faro

Memória

Ir ao Porto

Habituei-me a ver a cidade sempre do ponto de vista de quem chega. Ir ao Porto era algo assim como uma promessa de viagem, sem saber bem se nos aproximávamos da cidade, se ela se aproximava de nós.

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Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

Chegadas pelo tabuleiro inferior da Ponte Luís I, o destino era a Liberdade – a longa e movimentada Praça para onde confluíam todas as ruas, para onde caminhavam todas as pessoas, onde aconteciam todas as coisas – ou pelo menos as ruas, as pessoas e as coisas que sabíamos existirem.

A Praça abria-se numa espécie de vale entre os Clérigos que pontuam no cimo à esquerda e a subida, à direita, da Rua de Santo António (que durante muito tempo não ousou chamar-se de 31 de Janeiro). Ao fundo impunha-se a altíssima torre do edifício da Câmara – porque tem o telhado verde? – onde desembocava um imenso jardim de estátuas de pedra e canteiros relvados simétricos. E depois, Avenida dos Aliados acima, multiplicavam-se as fachadas majestosas de inúmeras construções, mas que eram então apenas fachadas, portas que se abriam do desconhecido, janelas que refletiam as nuvens no azul do céu. Mas havia também lojas com letreiros variados, cafés com paredes de espelhos e luzes quentes, onde sentavam umas e outras pessoas, umas tomando café, outras o seu reflexo.

Eram mais do que nomes, eram mais do que pessoas, lojas e cafés: era a própria cidade na sua expressão mais completa.

A torrada do lanche era, invariavelmente, na Ateneia, sem estar certa ainda de qual era a Ateneia ou a Arcádia, unidas que estavam tanto pela proximidade física como pela emoção do retorno. Eram salões de chá com uma atmosfera tão especial que se estendia para além do significado das palavras com que pudéssemos procurar traduzi-la.

O edifício da Ateneia ocupava um local histórico da Praça (onde se pensa ter sido anteriormente o edifício da antiga casa de sementes e flores A Flora Portuense, inaugurada em 1893 por Aurélio Paz dos Reis, pioneiro do cinema português). Obra do arquiteto Júlio José de Brito, responsável pelo desenho de muitas outras construções do centro da cidade nas primeiras décadas de novecentos, o edifício da Ateneia (inaugurado em dezembro de 1932) apresentava duas grandes montras de vidro separadas ao centro pela porta em madeira da entrada, ligeiramente recuada. As paredes claras do exterior do edifício esguio, modernista, iluminavam-se pelas delícias da produção de pastelaria da casa. A entrada era encimada pelo seu próprio nome manuscrito com uma linha de luzes acinzentadas que se acendiam quando se desligava o céu. Já no interior, iniciava com o longo balcão de madeira e vidro à esquerda, o salão em frente no espaço térreo que terminava ao fundo no corrimão das escadas de acesso à sala alta, debruçada como varanda sobre a primeira e, através do enorme vidro do fundo, sobre a Rua do Almada. Os espaços povoavam-se de robustas mesas quadradas e pesadas cadeiras, tudo em madeira escura, empregados sorridentes em fardas de camisa branca e tramelo ao pescoço, tabuleiro redondo, reluzente, equilibrado na mão esquerda, corpo levemente inclinado para a direita – ora muito boa tarde!, o que vai ser?

E subitamente tudo tomava o seu lugar: os reflexos nos vidros do armário da parede onde já todos estávamos, os tetos altos onde pendiam lustres reluzentes, o desenho geométrico do pavimento em mármore sépia e tons de vermelho esbatido, as senhoras nas mesas do lado confidenciando conversas, o rodopio constante dos empregados – ora muito boa tarde!, o que vai ser? – o tlim-tlim-tlim-tlim-tlim com que se adoçava o chá, a torrada irrepreensivelmente alinhada no centro do prato pousada na nossa mesa. Sons quase sussurrados na luz contida emprestavam ao salão o seu quê de suspense, evidenciando a sua magia.

Era mais que um espaço: era um tempo. Porque não guardamos as coisas mas a memória delas, que somamos às experiências e aos afetos, resultando assim noutras coisas. E só na memória recordamos o modo como se imprimiram em nós. Talvez por isso nem sempre o presente dessas mesmas coisas responda fielmente à memória que delas temos, ainda que revisitadas, ainda que aparentemente imutáveis.

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

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