18 Fev 2014, 8:55

Texto de Suzana Faro

Memória

De Camionete

Partíamos de manhã cedo. Esperava-nos a camionete alugada, à hora marcada, no sítio combinado. Minutos antes da partida era já um corrupio de gente para lá e para cá, os tios, os primos, os amigos da família, sem atrasos nem faltas de comparência. E nem mesmo a brisa mais fresca das horas tenras da manhã arrefecia os ânimos ou demovia as vontades.

Imagem de perfil de Suzana Faro

Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

Uma família tripeira em excursão. Final dos anos 50 do século XX.

Uma família tripeira em excursão. Final dos anos 50 do século XX.

À medida que se ia chegando entrava-se para a camionete, escolhiam-se os lugares e a companhia, os mais novos juntavam-se em grande algazarra na parte de trás, os mais velhos organizando-se à conversa nos lugares centrais, os veteranos tomando os lugares da frente, controlando as hostes e o percurso.

Partíamos, desta feita com destino a Viseu. A viagem fora organizada ao mais ínfimo pormenor, contabilizadas as três horas de caminho para percorrer os cerca de 130 km a que distava do Porto, com paragem breve a meio para esticar as pernas. A camionete deslizava ruidosa e lenta no empedrado da estrada, enquanto o tempo voava no seu interior.

O almoço para o picnic, preparado na azáfama da véspera, era também meticulosamente pensado entre todos: as batatas fritas à inglesa, com sal e pimenta; o frango assado; os rissóis variados; os finíssimos bifes panados; o arroz em tacho de ferro embrulhado em folhas de jornal, mantendo quentes as notícias de véspera, tudo cozinhado pelas tias; os deliciosos pastéis de massa tenra que fazia a mãe; o rolo recheado de chocolate, os bolos diversos, as garrafas com bebidas, a água, o garrafão de vinho, o pão, as bolachas e a fruta… que levavam uns e outros. Iguarias únicas saboreadas na memória de um tempo irrepetível.

Mantas estendidas sob as copas frondosas das árvores que se elevavam no jardim da Cava do Viriato marcavam a mesa do picnic. Espalhadas em cima delas, caixas e taxos e garrafas e garrafões e guardanapos e fruta e sacos e outros tantos invólucros e recipientes. À volta sentávamos nós, os tios, os primos, os amigos da família. O repasto demorava-se animadamente entre histórias e piadas de oportunidade, apontamentos curiosos e trocas de impressões da viagem, risos e sorrisos soprados como brisa leve por entre a mata, onde os mais pequenos corriam divertidos em grande alarido. Meninos, não se afastem, tenham cuidado – ouvia-se de vez em quando, mas havia cuidado e ninguém se afastava e tudo corria como previsto, cuidadosamente organizado desde há tempos, confirmado entre todos, distribuídas as incumbências e a confeção dos petiscos, no modo de sempre.

Recordamos como nossa a memória dos passeios de camionete, o grupo numeroso, a ementa do picnic. Mas é, no entanto, uma memória partilhada com o Porto, numa prática enraizada de um tempo em que a viagem era de todos e o transporte de nenhum.

Os grupos excursionistas multiplicavam-se a partir dos anos 30 do século XX, tendo perdurado ativamente por mais quatro décadas, até que a democratização do automóvel e o desenvolvimento dos transportes lhes viesse reduzir a expressão.

Mais informais uns, organizados em associações outros, eram grupos de familiares, de amigos, de colegas de trabalho, quotizando-se em pequenos montantes de dinheiro ao longo das semanas ou dos meses para garantir, na data escolhida, o aluguer do transporte e as despesas do passeio até paragens distantes, como Lisboa, a Serra da estrela, o Buçaco ou Santiago de Compostela.

E identificavam-se com nomes inspirados, espalhados por todo o lado – Grupo Excursionista Os Bem-me-queres da Boavista, Os Zangados de Campanhã, Os Solteiros de S. Mamede Infesta, Os Bairristas de Leixões, Os Alegres de Perafita, Os Triunfantes dos Carvalhos, Os Francos do Porto, Os Alegres da Carvalhosa… Mas havia também os mais provocadores, na Senhora da Hora o Não Chores que também vais ou, no Porto, Os Parafusos… as Porcas ficaram em casa

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

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