28 Fev 2014, 8:51

Texto de Suzana Faro

Memória

A casa tremia!

Creio que seria ainda Inverno. Era apenas mais uma noite fria e húmida. Madrugada. A memória dos contornos esfuma-se com a distância, deixando apenas impressos esses flashes mais intensos, breves, do passado. Num momento dormia, no outro corria já pelo corredor com o aviso: “Mãe, a casa tem frio, está a tremer!”

Imagem de perfil de Suzana Faro

Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

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“Sismo que fez tremer o solo desde o Algarve até ao Minho”, lia-se n’ O Comércio do Porto de 1 de março.

Sim, era verdade: a casa tremia. Mas não era a casa apenas, era a Terra. E a casa tremia com ela, estremeciam as paredes, abanava o chão debaixo de nós, e nele os armários, as mesas, a mobília. Caíam quadros da parede, tombavam peças, partiam vidros. O ruído cintilante adensava, assustador, ameaçando o silêncio profundo de cada um. Estremeciam também as pessoas mais que a própria Terra, alarmadas pela memória de um novo terramoto. Lá fora, os cães ladravam sem parar.

À noite, a casa grande e antiga, fora sempre um pouco assustadora nesse imaginário construído com os poucos anos que então tinha. Em baixo as salas de estar e de jantar, a copa e a cozinha. A escadaria larga, curvando no percurso, dava acesso ao corredor do 1º andar, estendido entre as portas dos quartos à direita e terminando em L, bem ao fundo, com o quarto de banho. Do lado esquerdo, a porta misteriosa para as estreitas escadas de serviço, degraus de madeira gasta pelo uso de outros tempos, que de tão escuros e velhos, nunca ousávamos descer. Rematava o conjunto o amplo sótão, espaço de memórias, salas vazias que se enchiam de brincadeiras, o pequeno compartimento com janela de mansarda onde a Tininha tornava novas as antigas costuras, metamorfoseando o tempo ao ritmo da canção sincopada da velha Singer.

Os estalidos intensos e o ranger das madeiras velhas, o vento assobiado por entre as escamas de xisto que forravam a parede exterior, ou pelas frinchas das janelas, o sopro lento dos ramos das árvores em volta, povoavam a quietude da noite na Quinta das Heras, partindo apenas quando o sol enchia da luz da manhã as altíssimas salas e a família voltava a ocupá-la.

Na madrugada de 28 de fevereiro de 1969 eram outros, porém, os sons que interrompiam a noite. Já todos estavam a pé. A Terra tremia – a casa tem frio, Mãe? Durava a eternidade dos seus breves segundos. Uns minutos mais, suspensos, e soltavam-se pelo ar vozes nervosas, um correr daqui para ali, o toque do telefone – estão todos bem? Os miúdos? Há muitos danos? –, um relatar de acontecimentos que nem bem tinham tido tempo de acontecer.

O sismo, sentido em todo Portugal Continental, atingia a magnitude de grau 7.3 na escala de Richter, com epicentro localizado no Oceano Atlântico (onde a intensidade fora de 8.0), a sudoeste do cabo de S. Vicente, assinalando-se como o mais grave no nosso país depois de 1755. Em cerca de 40 segundos, provocara estragos incalculáveis, entre derrocadas de casas, varandas e chaminés, avarias e bloqueios nas linhas de telefone, cortes de energia elétrica e algumas vítimas mortais, assinalados principalmente no sul do país.

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“Sair de casa e correr para a rua”, lia-se n’ O Primeiro de Janeiro”.

Mas também o Porto foi violentamente abalado naquela madrugada de fevereiro, despertou a cidade inteira em sobressalto, os habitantes assustados saindo para a escuridão da rua, apesar do frio húmido da noite de inverno. O corte de luz elétrica e o bloqueio das linhas telefónicas ao longo dos primeiros minutos adensaram o pânico instalado. De entre as pequenas derrocadas na cidade  queda de estuques e tetos, fendas nas paredes e vidros partidos  salientou-se a das pedras da cornija superior da Cadeia Civil (designação que a Cadeia da Relação do Porto conheceu até 1974). Circulavam os carros dos bombeiros pelas ruas, de prevenção, acumulava-se o movimento nas urgências dos hospitais. A cidade mantinha-se alerta, vigilante, não mais dormindo naquela noite.

A violência do abalo foi retratada em todos os periódicos de então, que descreviam minuciosamente os acontecimentos. “Sismo que fez tremer o solo desde o Algarve até ao Minho”, lia-se n’ O Comércio do Porto de 1 de março, ou “Sair de casa e correr para a rua”, n’ O Primeiro de Janeiro”.

Mas era ainda cedo para entender. Na escuridão inquieta da madrugada, interrompida pelas vozes que teimavam em não silenciar, encontrava o aconchego das palavras tranquilas de sempre para de novo adormecer.

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

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