Image de Bom Sucesso

O Mercado do bom Sucesso foi inaugurado em 1952.

13 Mar 2014, 10:54

Texto de Suzana Faro

Memória

Bom Sucesso

Sábado. Dia de compras. Vens connosco? – Pelas 10h saímos de casa e rumávamos ao Porto. O movimento que se adensava nas ruas anunciava a proximidade do mercado, enquanto a concentração ruidosa de pessoas identificava a larga entrada: chegados ao Bom Sucesso, onde a vida da cidade parecia concentrar-se, na manhã de sábado.

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Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

Não estava certa do trajeto, mas conhecia bem o destino. Paredes envidraçadas encaixilhadas por frisos de betão amarelado – um rendilhado mais apertado no piso térreo, soltando-se em maiores vãos no superior. Contorno curvilíneo – peito inchado respirando o ar da cidade –, o vasto passeio em redor, a entrada sob pala ondulada suportada pelas altas colunas cinzentas, avançada sobre o passeio, encimando a porta ampla. E gente, muita gente, vinda de cá e de lá, indo para ali e para aqui.

Distinguia o interior do edifício o chão em ladrilho bege com apontamentos cor de tijolo, sempre húmido, o teto ondulado iluminado pelo dia, as lojas e as bancas, a balaustrada do 1.º andar que se elevava a toda a volta, outras tantas lojas. E gente, muita gente, vinda de todas as partes, indo para todos os lados.

No rés-do-chão os legumes, jardins verdejantes estendidos em bancadas pontuadas de guarda-sóis, pomares de caixas em madeira coloridas de fruta, sacos alinhados de feijão e grão, ramos de flores muito frescas abandonadas pelo perfume da brisa matinal. Era o cheiro intenso das sardinhas, das fanecas, do carapau fresquinho no mercado do peixe, ao fundo, por entre ribeiros ténues de água corrente, os pés escorregando na humidade escamosa do chão, envolvidos pelo eco de pregões das vozes de todos. E gente, muita gente, vindo dali para aqui, indo daqui para ali.

Depois subíamos, era a ida ao talho da Maria Alice e da Maria Otília, os cumprimentos, as conversas. A seguir o talho daquele outro senhor de onde se levava a carne, inteira, picada, branca, vermelha, o chouriço, a salsicha fresca. Por fim descíamos de novo para o mercado do peixe já amanhado à nossa espera, os sacos a abarrotar com os produtos frescos para a semana. E gente, muita gente, com outros tantos sacos cheios a abarrotar, daqui para ali, dali para aqui, falando, acotovelando-se, apressada ou sem pressa, nesse ritual que era também o nosso.

Achávamos que sempre assim teria sido, desconhecíamos ainda como aí chegara. O nome, adequado às transações de um mercado, herdara-o afinal da capela e quinta de Nossa Senhora do Bom Sucesso edificada em meados de setecentos, próximo do local onde a 27 de maio de 1952 se veio a inaugurar o Mercado: espaços amplos, 132 lojas, 760 bancas, bem iluminado pelos lanternins que se abriam na cobertura, tudo num projeto de ARS Arquitectos. Mais de doze mil metros quadrados de cidade, de vidas, de frescos onde se abasteciam as vidas daquela área da cidade. Gente, muita gente, que acorria ao Bom Sucesso.

Antes do Mercado, fora o espaço habitado por outras vidas em ilhas desse mar de fábricas que a cidade viu proliferar desde os finais de oitocentos. Neste mesmo espaço se instalava o circo, no início de cada verão, exibindo a céu aberto ensaios de artistas e equilibristas, perante o olhar incrédulo de todos. Nessa cumplicidade de equilíbrio instável estendida entre umas e outro passeava, ousado, o artista do arame, desafiando aquelas a vida, este a gravidade.

Agora, porém, era já o pulsar do mercado de frescos, a vida numa só vida de bom sucesso, na manhã de sábado, gente, muita gente, vinda de cá e de lá, indo para ali e para aqui.

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

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