Image de 93 CARMO

O Mercado do Anjo, inaugurado em 1839, daria mais tarde lugar à Praça de Lisboa.

7 Mar 2014, 19:08

Texto de Suzana Faro

Memória

93 CARMO

93 CARMO, lia-se nas luzes laranja da frente. Mas era a Praça de Lisboa o fim da linha, anunciada pela elegantíssima Torre dos Clérigos, que rompia os céus mesmo a seu lado. Ali saíam os últimos passageiros, acabava a carreira do 93, começava a cidade.

Imagem de perfil de Suzana Faro

Nasceu no Porto. Cresceu do outro lado do rio, no morro que já teve um castelo, mouros e uma lendária princesa apaixonada. Daí contemplava a cidade onde estudou e fez amigos. Fez o seu percurso como dirigente associativa, colaboradora em jornais e revistas, arqueóloga, professora universitária. É museóloga, doutorada pela Universidade do Porto. Coordena o Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto.

Apeados, os passageiros seguiam caminho, diluindo-se pelas inúmeras artérias em que batia o coração do Porto. Em frente, o Jardim da Cordoaria e o monumental edifício da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto; à esquerda a Praça dos Leões, o fontanário e suas imponentes palmeiras, depois as igrejas do Carmo e das Carmelitas, mais ao fundo o Hospital de Santo António, do outro lado a Praça de Carlos Alberto e a Rua de Cedofeita; pela Rua dos Clérigos, a descida para a baixa da cidade.

A Praça de Lisboa, essa, tinha vida própria. Eram barracas de tudo e de mais alguma coisa. Gente para lá e para cá. Acelerados uns. Demorados outros. Relaxados uns outros. Nas inúmeras bancadas de madeira sob toldos de lona com a cor gasta do tempo passado estendiam-se roupas, meias, flores, fruta, pijamas, legumes, utilidades diversas. Unia-as a sua diferença, a desorganização reinante, a confusão, as vozes que se misturavam, a partilha de um espaço e de uma vida comum.

Por entre as barracas passavam outras vidas que aí acorriam para comprar uma nova bata, tecido axadrezado, para as lides caseiras. Ou um xaile para os dias mais frios. E aconchegavam nos braços grandes ramos de flores, molhos de legumes frescos, nesses braços onde pendiam já sacos plásticos de cor azul ou rosa com outras utilidades das rotinas diárias. Gente que entrava, gente que saía, encontros e desencontros, vidas apressadas de uma felicidade que tantas vezes tardava em chegar.

Desarmoniosa. Desorganizada. Sim, assim o tempo lhe ditou a sorte, para outro tempo, depois dele, lhe confiar novos destinos.

O espaço da Praça de Lisboa, porém, conhecera a sua vocação de mercado urbano muito antes. Data de 9 de julho de 1839 a inauguração, naquele mesmo sítio, do Mercado do Anjo, que, desde que aí assentou praça, lhe garantiu honras de destaque no comércio da cidade. A ideia, surgida na sequência da vitória do Liberalismo, fora aprovada pela Câmara Municipal já em 1834 e a sua construção vinha dar resposta às necessidades de abastecimento de uma população crescente neste Porto de comércio, que o era agora também de indústria. Para aí foram transferidas as vendas das hortaliças, da fruta, do peixe, das flores… que daí partiriam em 1952, com o seu encerramento e demolição (quando se construíra já o Mercado do Bom Sucesso noutra área da cidade). Fim do mercado, mas não da sua vocação, que se veio a manter numa área comercial que então se constituiu no local, ao mesmo tempo que o Anjo dava lugar à Praça de Lisboa.

O nome de Anjo, esse, tinha raízes bem mais antigas, reportando a uma viagem que fizeram D. Afonso Henriques e D. Mafalda de Coimbra para Guimarães, em 1153. Nesses tempos lendários, em que a égua que transportava a rainha havia caído por um barranco no sítio do Olival, fora a proteção de S. Miguel o Anjo, invocado pelo monarca, que lhe garantira que saísse ilesa do acidente. Em agradecimento, mandaria o rei edificar no local uma capela em honra do seu protetor.

A pequena ermida, entretanto demolida, garantiu que o sítio do Olival tomasse o nome do Anjo, dando depois lugar à Praça de Lisboa, retomando hoje, requalificada e de novo repleta de velhas oliveiras transplantadas do Alentejo, a velha toponímia do Olival.

Também o 93 é já outro, no nome como no destino.

Suzana Faro escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Memória

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