Image de A Estação de São Bento faz 100 anos

Foto: Porto Desaparecido

4 Out 2016, 17:42

Texto de Manuel de Sousa

Memória

A Estação de São Bento faz 100 anos

,

A revista de turismo Travel & Leisure considerou-a uma das estações ferroviárias mais bonitas em todo o mundo. Reconhecimentos idênticos foram-lhe dados pelas revistas Condé Nast Traveler e Flavorwire, tendo também sido galardoada com o Prémio Brunel, na categoria Estações. Falamos da Estação de São Bento, no Porto, que completa 100 anos de existência.

Imagem de perfil de Manuel de Sousa

Manuel de Sousa nasceu em Miragaia em 1965. Licenciado em Ciências Históricas, desenvolveu uma actividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing, sem nunca ter abandonado o seu interesse pela história da cidade do Porto. Procurando aliar a divulgação da história local com as redes sociais, no início de 2012 criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto.

No Porto, as comemorações do 6.º aniversário da Implantação da República em Portugal revestiram-se de significado especial. Tiveram como ponto alto a inauguração oficial do grandioso edifício da estação central dos caminhos de ferro.

Pouco passava da uma hora da tarde, de quinta-feira, 5 de outubro de 1916, feriado nacional. A multidão enchia a praça de Almeida Garrett, no meio da qual se destacavam as principais autoridades militares e civis da cidade e do distrito, bem como os responsáveis máximos pelos caminhos de ferro. Os oradores manifestaram o seu regozijo pela boa conclusão das obras e pela festiva inauguração da estação central que representava «não só um monumento grandioso para a cidade, mas também uma notável obra de arte pela imponência e majestade das suas linhas arquitetónicas e pelo realce e esplendor das suas decorações artíticas», como nos relata a edição de O Comércio do Porto do dia seguinte.

Seguiu-se a execução de A Portuguesa pela banda da Guarda Nacional Republicana, escutada de cabeça descoberta por todos os presentes. Abriram-se as portas da nóvel estação, com traço do arquiteto José Marques da Silva, também presente, irrompendo a enorme multidão pelo grandioso vestíbulo dentro.

Na altura – tal como hoje – causaram espanto os magníficos quadros cénicos compostos pelos 20 mil azulejos da autoria de Jorge Colaço que forram por completo as paredes do vestíbulo. Ocupando uma superfície total de 551 metros quadrados, incluem painés representando cenas históricas: o torneio de Arcos de Valdevez, de 1140; a apresentação de Egas Moniz ao rei de Leão; a entrada triunfal de D. João I e D. Filipa da Lencastre no Porto, em 1386; a conquista de Ceuta, em 1415. Há ainda cenas campestres e etnográficas: a procissão da Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego; a romaria de São Torcato, em Guimarães; a vindima; a feira do gado; o transporte do vinho num barco rabelo, no Douro. No topo, podemos ainda admirar um friso multicolor evocativo da história da viação nacional, desde os primórdios até à chegada do primeiro comboio a Braga.

O enorme edifício de Marques da Silva veio ocupar o local onde, durante praticamente quatro séculos, esteve implantado o convento feminino de São Bento de Ave-Maria, erguido inicialmente por iniciativa do rei D. Manuel I. A extinção das ordens religiosas, em 1834, veio abrir a possibilidade do espaço poder ter outro uso.

Vindo de Lisboa, o caminho de ferro tinha já alcançado Vila Nova de Gaia em 1864, mas foi preciso esperar mais treze anos para, graças à conclusão da ponte Maria Pia, o comboio chegar finalmente à cidade do Porto. Mas a estação ficava em Campanhã, na época um arrabalde distante do centro. Pela Gazeta dos Caminhos de Ferro sabemos que, no final do século XIX, por Campanhã passavam anualmente 750 mil passageiros e 600 mil toneladas de mercadorias. Ora, evitar que pessoas e mercadorias tivessem de empreender a desconfortável deslocação até à distante estação ferroviária parecia razão suficiente para obrigar ao prolongamento da linha até ao centro da cidade, projeto que foi confiado ao engenheiro belga, radicado em Portugal, Jean-Baptiste Hippolyte de Baère. O local do antigo convento, com uma área de 16 mil metros quadrados, afigurava-se ideal para o estabelecimento da nova gare central, obra estimada em 720 contos de réis.

O projeto – que incluía a abertura de três túneis – e o orçamento para a nova estação central ficaram aprovados em 1888. Em 1892 morre a última abadessa do convento de São Bento de Ave-Maria, iniciando-se a demolição do edifício dois anos depois. Em 1896, com toda a pompa e circunstância, a cidade do Porto em peso pôde assistir à chegada do primeiro comboio a São Bento. Três barracões de madeira, funcionavam como gare provisória.

Pela mesma altura, em Paris, o jovem arquiteto José Marques da Silva defendia o seu projeto final de curso, tendo por tema a construção de uma gare central no Porto, passando com distinção e obtendo o título de “Arquiteto Diplomado pelo Governo Francês”.

Regressado ao Porto, Marques da Silva ficou encarregue de desenhar o projeto para a nova gare de São Bento. Mas teve de desenvolver várias versões de projeto, submetendo-se aos ditamos de comissões sucessivas. Em 1900, o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia colocaram a primeira pedra do novo edifício, cuja construção só arrancou três anos depois, quando o projeto definitivo foi finalmente aprovado. O edifício foi concebido em forma de U, com frentes para as ruas da Madeira e do Loureiro, estando a fachada principal voltada para a praça de Almeida Garrett.

Em 1911, Marques da Silva projetou, também, uma Estação de Correios e Telégrafos, edifício anexo à estação ferroviária, com frente para a rua do Loureiro, que nunca chegou a ser construído.

A funcionar há 100 anos, São Bento perdeu entretanto o estatuto de “estação central” do Porto que cabe (sempre coube) a Campanhã. Para além disso, a linha do Metro do Porto constitui hoje uma alternativa eficaz na ligação entre a Baixa e Campanhã. No entanto, para além da sua utilidade prática enquanto estação de comboios, a beleza do edífico de Marques da Silva, enriquecido pelos azulejos de Jorge Colaço, tem atraído crescentes levas de turistas de todo o mundo. Planos recentemente anuciados dão-nos conta do intenção de vir aí a instalar também um hotel e áreas comerciais e culturais, procurando dar um novo uso a antigos armazéns desocupados. Tais iniciativas contribuirão, certamente, para aumentar a frequência deste espaço tão emblemático da cidade do Porto.

Memória

No Porto24, contamos as histórias que fazem o dia-a-dia do Grande Porto. A nossa missão é ser também um espaço de reflexão e debate. A Opinião é uma plataforma animada por um conjunto de intervenientes e observadores atentos da cidade, que escrevem com regularidade.