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29 Jun 2014, 14:50

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Opinião

O rato que roeu o Rolls Royce do Rei de Espanha

O rei de Espanha sofre com a crise – com a crise dos que têm crise. A crise roeu a vida dos cidadãos mas não roeu a lata dos que sofrem pelos que sofrem com a crise.

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Nasceu no Porto, em 1961. Professor associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tem dedicado os seus trabalhos de investigação à expressão do fenómeno droga em contexto urbano. A evolução deste fenómeno conduziu-o à pesquisa sobre o sentimento de insegurança, a violência urbana, a marginalidade e a exclusão social. Durante vários anos foi cronista dos jornais “O Comércio do Porto”, “A Página da Educação” e “Público”. Mantém actividade literária com o pseudónimo João Habitualmente.

Na edição eletrónica do JN do dia 20 de junho vinham, um imediatamente a seguir ao outro, os dois títulos seguintes:

“O Rolls Royce do rei de Espanha é o mais caro da marca”
“Felipe VI recorda cidadãos que sofrem pela crise”

Se viessem cada um em seu sítio, ou cada um em seu dia, não tinha nenhum deles nada de extraordinário – o que gera o insólito é o efeito de contiguidade. O espaço noticioso é isotónico, há uma espécie de homogeneidade que iguala todas as notícias, o que tem um efeito desvitalizante do poder de que algumas notícias poderiam revestir-se. Ora aqui estaria um bom início para uma crónica de teor erudito, não se desse o caso de preferir hoje navegar mais rente à terra.

Tratando-se dum monarca, vem-nos logo à lembrança o rato que roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia. Mas não roeu a lata do Rolls Royce do rei de Espanha. Aliás, a lata do rei de Espanha: o rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia mas não roeu a lata do rei de Espanha.

O rei de Espanha sofre com a crise – com a crise dos que têm crise. A crise roeu a vida dos cidadãos mas não roeu a lata dos que sofrem pelos que sofrem com a crise. A crise vista de dentro dum Rolls Royce rói a rolha da garrafa da paciência dos que andam a pé. E quem não tem um Rolls rói-se. Que complicado é o mundo!

Ainda bem que em Portugal não há rei senão tínhamos de andar a pé a roer rolhas de garrafas do rei de Espanha e a sofrer pela crise da República que não tem Rolls Royces mas tem outros iguais modos de esbanjação. O nosso primeiro ministro não tem Rolls Royce mas não consta que se lembre de recordar os que sofrem pela crise. Aliás, a crise e o sofrimento são coisas boas, são coisas mesmo essenciais, porque a primeira só aconteceu porque somos esbanjadores e andávamos a gastar acima das nossas possibilidades e o segundo só acontece porque a luxúria paga-se com expiação e arrependimento. Eu, por exemplo, gastava 20 € por mês a mais – tudo em chiclets e cerveja – mas já me corrigi e agora mastigo sabão macaco e bebo água da torneira e anseio pelo dia em que finalmente vão privatizar a água para os preços baixarem e poder voltar a tomar banho e eles poderem despedir um monte de funcionários públicos que andam a dar água sem caneco.

O meu medo quando vi este príncipe subir ao trono é que agora venha outra vez um Felipe por aí adentro, ainda só recuperámos a soberania há pouco mais dum mês e vinha agora Felipe VI de Espanha e III de Portugal e tínhamos de lhe pagar o Rolls Royce com mais uma sobretaxa extraordinária ou o IVA a 30% – logo agora que em Portugal já está tudo bem menos as pessoas. A diferença entre o elétrico e a pomba é que ambos voam menos o cavalo.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Opinião

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