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19 Jan 2015, 10:44

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Opinião

Discursos redondos, partidos quadrados

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Vou soltar o meu grito para 2015, o ano auspicioso em que nos vamos livrar do governo que nos entregou para repasto da ganância financeira internacional.

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Nasceu no Porto, em 1961. Professor associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tem dedicado os seus trabalhos de investigação à expressão do fenómeno droga em contexto urbano. A evolução deste fenómeno conduziu-o à pesquisa sobre o sentimento de insegurança, a violência urbana, a marginalidade e a exclusão social. Durante vários anos foi cronista dos jornais “O Comércio do Porto”, “A Página da Educação” e “Público”. Mantém actividade literária com o pseudónimo João Habitualmente.

O que é a política? O que são os políticos – e, sobretudo, quem são os políticos? Fundas questões múltiplas vezes respondidas, múltiplas vezes recomeçadas. Não vou, em três mil carateres, resolver a questão. Vou apenas soltar o meu grito para 2015, o ano auspicioso em que nos vamos livrar do governo que nos entregou para repasto da ganância financeira internacional. E esclareço de início que restrinjo aqui o termo “política” e “político” aos que têm vindo a apropriar-se da arte do governo da polis, reduzindo-a aos interesses de máquinas partidárias que têm vindo a transformar a política em carteira de empregos. Política como arte do governo da polis, política como exercício desinteressado do poder em nome do bem comum – onde isso vai!

Tenho a possibilidade, que exerço em liberdade, de não ser comentador político tal qual se fazem para consumo de televisões. Tenho a sorte de não ser comentador desportivo, tal qual se fazem para entretenimento bovino de benfiquistas, sportinguistas e portistas – porque é isso ser comentador desportivo naquelas refregas em que vejo envolvida gente que nos habituámos a admirar por várias razões e que nos põem a meditar sobre o esquisito animal que somos. Mesmo assim, mesmo sem ser comentador feito para o que acabo de dizer, vou lançar o meu grito, que ecoará pela floresta de 2015 perdendo-se na primeira árvore que decidir engoli-lo.

Se me mandassem, como fizeram ao Zequinha a propósito dos pinguins, resumir numa linha o que penso da política, da política tal como acabei de a situar ainda agora, dizia: a política é a arte de fazer discursos redondos em partidos quadrados. Vamos por partes a esta geometria:

– discursos redondos. Numa coisa redonda damos a volta e vamos ter ao mesmo sítio. Sempre que fala um político encartado, com poucas exceções, adivinho ao fim das primeiras frases o que vai dizer. Há casos graves, como o de Portas, que quando fala parece que está a explicar política no Portugal dos Pequeninos. Outros casos graves são os do partido comunista, que não afugentaram ainda a fantástica metáfora da cassete dos tempos de Cunhal. Mesmo o Bloco de Esquerda, que nos habituou ao vanguardismo das suas ideias – estou à espera do dia em que venha um dirigente ou um militante de destaque e consiga falar sem dizer que tudo quanto o governo faz está errado. Porque, mesmo com um governo que erra com a facilidade e o à vontade deste, não pode estar tudo errado. Não pode, por definição. Pela mesma definição que diz que não há um estúpido que seja estúpido até ao fim.

– partidos quadrados. Só é possível passar o tempo a dizer coisas redondas em duas circunstâncias: quando somos nós próprios redondos e quando pensamos que os outros são quadrados. No caso dos nossos políticos ele há os dos dois géneros, e mesmo há um género que é feito dos dois. Podia dar exemplos, mas puxo pela imaginação do leitor, que ao fim de cinco minutos terá uma folha A4 cheia de nomes, uns quadrados, outros redondos, outros redondos quadrados.

E o que acontece a um quadrado quando o dividimos com uma reta paralela a um dos lados? Obtemos dois retângulos. É isso que fazem os partidos quadrados: como o quadrado é pequeno para todos os que querem lá estar, divide-se o quadrado em dois retângulos e em cada um reina uma tendência. Exemplifiquemos com o último destes acontecimentos: dividimos o quadrado socialista e temos o retângulo segurista e o retângulo costista. Para mim, que estou de fora, vai ser um exercício para as tardes de ócio ao sábado depois da caminhada por causa do colesterol identificar as diferenças entre os dois retângulos. Mas devem ser importantes, a avaliar pelo modo como se espingardaram durante o período de eleições internas.

E quando os discursos redondos dos partidos quadrados resultam em triângulos – não no das Bermudas, que fazia desaparecer navios e aviões, mas nos que fazem desaparecer as ideias e os compromissos sérios com os cidadãos que os elegem? Exemplifiquemos agora com os dois partidos que ainda são governo. No fim ficamos a ver navios – ao contrário dos das Bermudas, que nunca mais ninguém via. Por que não vão políticos destes para as Bermudas?

PS: a redação do Zequinha dizia simplesmente “Este livro diz muito mais sobre os pinguins do que o que importa saber”.

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